Caracterizando a Personalidade de Tipo Falso Self, segundo Winnicott

Perdi completamente uma ilusão.
Nunca se perde mais do que uma.
Nela vai todo o coração:
O resto é espuma.

 

Fernado Pessoa

 

 

Centro Winnicott de São Paulo

Virginia Maria Martinelli Braga Gonçalves

14/11/2008

 

 

 

 

Introdução …………………………………………………………………………………………………. 3

 

Níveis de Organização do Falso Self Segundo Winnicott ……………………………… 4                                                                       

 

Dependência Absoluta ………………………………………………………………………………… 4

 

A Função Materna na Formação do Verdadeiro Self …………………………………… 5

 

A Mãe Suficientemente Boa ………………………………………………………………………… 6

 

As Bases Para a Constituição do Falso Self ………………………………………………….. 6

 

O  Impulso Criativo e O Verdadeiro Self …………………………………………………….. 7

 

O Brincar, a Experiência Cultural e o Uso de Símbolos ……………………………….. 8

 

Conclusão ………………………………………………………………………………………………….. 10

 

Referência Bibliográfica …………………………………………………………………………….. 13

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Introdução

 

 

Winnicott desenvolve o conceito de verdadeiro e falso self tomando como partida a idéia de Freud de self constituído por um núcleo central que é controlado pelos instintos e uma outra parte voltada para o exterior e relacionada com o mundo.

 

 Distanciando-nos agora de Freud, Winnicott se preocupa em estudar os diferentes níveis de cisão entre verdadeiro e falso self. Para isso ele parte do pressuposto que considera a cisão entre verdadeiro e falso self como um estado essencial inerente a  todo ser humano saudável. O que vai determinar a cisão entre verdadeiro e falso self  como um aspecto da saúde ou não é a relação que o indivíduo mantém entre o mundo subjetivo e a realidade.  Para Winnicott, na saúde essa cisão ocorre num grau de normalidade onde o indivíduo se relaciona com a realidade mas mantém uma ligação com o mundo subjetivo (verdadeiro self). Na patologia o indivíduo tipo falso self funciona como um objeto do mundo sem noção de si mesmo.

 

Nesse trabalho vamos caracterizar a personalidade tipo falso self e para isso vamos estudar os conceitos de Winnicott no que diz respeito aos aspectos da relação mãe-bebê na fase da dependência absoluta no que se refere a primeira mamada teórica, a ilusão de onipotência e, ao objeto subjetivo. Ao longo do trabalho, na medida em que desenvolvemos os conceitos básicos da função materna, já mencionados acima, exploramos a noção de mãe suficientemente boa e sua contribuição na constituição do verdadeiro self em oposição a personalidade falso self. Nesse processo vamos mais adiante procurando como faz Winnicott relacionar o impulso criativo, o brincar, a experiência cultural e o uso de símbolo a constituição do verdadeiro self que possibilita o indivíduo a exercer o EU SOU e conseqüentemente de experimentar a vida na área dos fenômenos transicionais em oposição a personalidade tipo falso self.

 

Concluímos o trabalho usando exemplos da literatura para estabelecer distinções entre os aspectos relacionados a uma personalidade do tipo falso self e outra do tipo verdadeiro self. Para tanto escolhemos a personagem Macabéa da Clarisse Lispector no livro Hora da Estrela como exemplo de alguém que nutre um sentimento profundo e verdedeiro de self em oposição a poeta Silva Plath que escreve sobre o drama de viver sentimentos de irrealidade e futilidade próprios de uma personalidade tipo falso self.

 

 

 

Níveis de Organização do Falso-Self Segundo Winnicott

 

 

Winnicott classifica as organizações do falso self em vários níveis, progredindo gradualmente da patologia até atingir a normalidade. Em ordem decrescente de dificuldade temos:

 

  • o falso self usado e tratado como real ocultando o verdadeiro self;
  • o falso self que defende e protege mas que sente o verdadeiro self como potencial e o preserva numa vida secreta;
  • o falso self que se ocupa em encontrar condições ambientais que  possibilite o self verdadeiro começar a existir,
  • o falso self constituído sobre identificações introjetadas ao longo da vida,
  • e, na normalidade, o falso self como a atitude social adequada protegendo um verdadeiro self que se encontra vivo. (Winnicott, 1990)

 

Na patologia o falso self é:

  • usado e tratado como real – o individuo nutre sentimentos de irrealidade e futilidade
  • construído na submissão – os impulsos instintivos sedem a função de auto-preservação usado como escudo na função defensiva de proteção do self verdadeiro –   dissociação entre a mente e o psicosoma (splitting).

   

 

 

Dependência Absoluta

 

 

Para Winnicott o falso self se desenvolve no estágio de dependência absoluta na convivência do lactente com a mãe. Portanto ao estudarmos a origem do falso self precisamos examinar a relação mãe-bebê nos seus estágios iniciais do desenvolvimento do bebê.

 

“Para se conseguir uma exposição do processo de desenvolvimento pertinente, é essencial considerar-se o comportamento da mãe, bem como sua atitude, porque neste campo a dependência é real e quase absoluta. Não é possível se afirmar o que se passa considerando somente o lactente.” (Winnicott, 1990; pag.132)

 

No início o bebê esta fundido com a mãe, e é totalmente dependente dela. O bebê se encontra no estágio de dependência absoluta. No estágio de dependência absoluta o bebê está não-integrado na maior parte do tempo, mas vive momentos de integração. O EU SOU é a integração das experiências de si-mesmo do bebê no estado unitário.  A integração no entanto, nunca é definitiva é um estado que vai e volta. Essa integração se dá de duas maneiras; através das exigências instintuais e satisfação das mesmas pelos cuidados maternos (manejo).

 

 

 

A Função Materna na Formação do Verdadeiro Self

 

 

A mãe tem uma função essencial na formação do self do bebê. Para desempenhar bem essa função é preciso que a mãe consiga estar em sintonia com o seu bebê. O período gestacional para Winnicott prepara a mãe para o que vem depois, o nascimento do bebê. A mãe real é a pessoa mais preparada para fornecer ao bebê um ambiente emocional que inclui os cuidados físicos, pois ela adapta-se naturalmente as necessidades do seu bebê. (Winnicott,1990, Natureza Humana, Parte IV; cap. 1)

 

 Essa função materna essencial possibilita à mãe pressentir as expectativas e necessidades mais precoces de seu bebê, e a torna pessoalmente satisfeita sentir o lactente à vontade. É por causa dessa identificação com o bebê que ela sabe como protegê-lo, de modo que ele comece por existir e não por reagir. Aí se situa a origem do self verdadeiro que não pode se tornar realidade sem o relacionamento especializado da mãe, o qual poderia ser descrito com uma palavra comum: devoção. (Winnicott, 1990; pag. 135)

 

A mãe portanto é quem fornece nesse início o contexto para  o relacionamento mãe-bebê. É nesse contexto que ocorre a primeira mamada teórica[1].

 

Esse primeiro contato será satisfatório, na medida em que  a mãe usando da sua sensibilidade adaptá-se as necessidades do bebê e permite que ele tenha a ilusão de que aquilo que ele estava procurando foi encontrado. O bebê então tem a ilusão de que ele criou o seio. É a partir dessa primeira experiência relacional que todas as outras vão se desenvolver.

 

Quando a mãe ambiente incorpora o movimento do bebê e adapta-se as suas necessidades cria-se um padrão de relacionamento  favorável a continuidade de ser do bebê, base para a sensação de real e de um viver verdadeiro. Funda-se as bases para o desenvolvimento do verdadeiro self. O padrão de relacionamento  é intrusivo quando a resposta do ambiente ignora o processo vital do indivíduo. Num ambiente intrusivo a ação do bebê é substituída pela ação da mãe. O bebê então passa a reagir à intrusão e não pode seguir existindo. Aqui se instaura as bases para a constituição do falso self. (Winnicott, 1990 Natureza humana, Parte IV ; cap. 4)

 

A mãe quando é capaz de identificar-se com o bebê ela vai de encontro ao momento criativo do bebê e está a espera de ser descoberta por ele. A mãe que  se adapta as necessidades do seu bebê oferece o que ele precisa e com isso permite ao bebê a ilusão de ter criado os objetos externos até que este possa  com o crescimento da capacidade emocional aceitar a natureza externa das coisas e utilizar-se  da desilusão. Desilusão aqui como processo positivo que leva a novas fases de desenvolvimento do self; rumo ao concernimento, a  posição depressiva, a dependência relativa e finalmente a independência.

 

 

A Mãe Suficientemente Boa

 

 

O bebê que teve uma mãe suficientemente boa, não sabe da existência do mundo e por isso não está subjugado a constatação objetiva. A mãe foi para o bebê o objeto subjetivo[2] e o bebê ficou protegido do entendimento da realidade para a qual ainda não tem maturidade emocional.

 

A mãe falha quando não entra em sintonia com o seu bebê e senti as necessidades do seu bebê, satisfazendo-as na medida certa. A mãe falha quando não reconhece no gesto espontâneo do bebê a expressão de um impulso e submete o bebê ao ambiente, impondo prematuramente contato e comunicação criando assim  um padrão de submissão, base para a constituição do falso self.

 

O sentimento de real está ligado a ilusão de onipotência do bebê de poder criar o mundo para satisfazer as suas necessidades. A fusão dos elementos motores e eróticos nesse período do desenvolvimento do bebê vai depender da capacidade da mãe em satisfazer o gesto do lactente. A integração dos vários elementos sensório-motores (instintuais), no estado unitário do Eu Sou é feita pelos cuidados regulares, simples e contínuos dispensados pela mãe ao bebê.

 

A mãe suficientemente boa alimenta a onipotência do lactente e até certo ponto vê sentido nisso. E o faz repetidamente. Um verdadeiro self começa a ter vida, através da força dada ao fraco ego do lactente pela complementação pela mãe das expressões de onipotência do lactente. (Winnicott, 1990; pag.133)

 

A mãe suficientemente boa está em total sintonia com o seu bebê e responder a ilusão de onipotência[3] do bebê indo ao encontro do gesto espontâneo do bebê. O gesto espontâneo[4] é a fonte do verdadeiro self.

 

 

 

As Bases Para a Constituição do Falso Self

 

 

A mãe que não é suficientemente boa não é capaz de complementar a onipotência do lactente, e assim falha repetidamente em satisfazer o gesto do lactente: ao invés, ela o substitui por seu próprio gesto, que deve ser validado pela submissão do lactente. Essa submissão por parte do lactente é o estágio inicial do falso self, e resulta da inabilidade da mãe de sentir as necessidades do lactente.(Winnicott, 1990; pag. 133)

 

A criança submetida desconhece o seu impulso, fica inibida e não conhece as suas necessidades mas as necessidades da mãe. Essa submissão passa a fazer parte da natureza do indivíduo que depende de alguém que lhe dê direção. Ele é um indivíduo que não sabe de si. A fusão dos elementos motores e eróticos não se estabelece dando lugar a dissociação entre mente e psicossoma. Conseqüentemente os impulsos instintivos sedem lugar ao auto preservativo.

 

A origem do falso self está relacionado com uma adaptação não suficientemente boa (mãe/bebê) nos estágios inicias nas primeiras relações do lactente com a mãe-ambiente. Diante da falha da mãe o bebê é obrigado a reagir ao invés de SER simplesmente.

 

 

 

 

 

 

O  Impulso Criativo e O Verdadeiro Self

 

 

 É a partir do repouso, de um estado de não integração que o impulso criativo acontece em conseqüência de uma necessidade. Esse impulso que vem do bebê é sentido como real e verdadeiramente uma experiência pessoal. Quando esse impulso não é reconhecido e acolhido pela mãe ambiente ocorre uma interrupção no próprio processo de amadurecimento do bebê. Quando essa interrupção é constante cria-se um padrão de resposta do ambiente as necessidades do bebê que interrompe a continuidade de SER do bebê. O bebê que se submete ao mundo externo (a mãe ambiente) é um bebê traumatizado.

 

“ Enquanto o self verdadeiro é sentido como real, a existência do falso self resulta em uma sensação de irrealidade e em um sentimento de futilidade.” (Winnicott, 1990; pag. 135)

 

O bebê reage a invasão ambiental a partir do não ser, na função defensiva que leva a formação de um eu submisso ou falso. Falso é tudo que vem do mundo i.e. é o que o mundo impõe. O que o torna verdadeiro é a capacidade de brotar espontaneamente através do gesto, são essas experiências que o bebê integra com sendo sua.

 

O sentimento de real base para o verdadeiro self é construído pela própria ação criativa do bebê que se expressa através do gesto espontâneo do bebê. Tudo que se encontra fora da área de onipotência do bebê e portanto fora da ilusão compartilhada (mãe/bebê) é sentida como falsa e uma intrusão ambiental que ameaça a continuidade de ser do bebê.

 

Esse sentimento de real é a base da fusão dos elementos motores e eróticos no estado unitário do EU SOU. É esse sentimento de real que une o lactente ao objeto e a base do viver criativo, possibilitando, no indivíduo normal a existência de uma vida cultural.

 

A normalidade está aqui intimamente ligada à capacidade do individuo de viver em uma área intermediária entre o sonho e a realidade, aquela que é chamada de vida cultural. (Winnicott, 1990; pag.137)

 

 

 

O Brincar, a Experiência Cultural e o Uso de Símbolos

                                                          

 

É apenas nos estados não integrados da personalidade, i.e. na área intermediária (entre o mundo interno/subjetivo e a realidade compartilhada), que o criativo pode emergir e o SER é encontrado. O brincar das crianças pequenas acontece na área intermediária entre o sonho e a realidade.

 

Na normalidade o ego do lactente é adaptado ao ambiente, mas não é associado a uma rigidez de defesas que o impede de se sentir real e crescer com as experiências. Essa adaptação de ego equivale as boas maneiras sociais e representam uma conciliação, resultado da mediação entre falso e verdadeiro self e o sintoma é a formação de compromisso. Esse processo só pode ser feito porque existiu antes um self verdadeiro fruto da adaptação suficientemente boa da mãe às necessidades do bebê.

 

Como contraste, onde há um alto grau de splitting entre o self verdadeiro e o falso que oculta o self verdadeiro verifica-se pouca capacidade para o uso de símbolos, e uma pobreza de vida cultural. (Winnicott, 1990; pag.137)

 

O lactente que é forçado a reagir a uma intrusão do ambiente está impossibilitado de expressar um impulso espontâneo. A falha repetidamente da mãe em satisfazer o gesto do lactente substituindo pelo seu separa em invés de unir o lactente ao objeto (como objeto parcial materno). Como conseqüência o lactente não sente as exigências do id como parte do self mas como ambientais. Dessa forma o ego não é capaz de incorporar as excitações do id e satisfazê-las. O indivíduo fica impossibilitado de exercer o EU SOU e conseqüentemente de experimentar a vida na área dos fenômenos transicionais.

 

O brincar faz parte dos fenômenos transicionais. A criança que brinca e sente prazer com isso é capaz de experimentar o mundo nessa área intermediaria entre o sonho e a realidade.

 

É no brincar, e talvez apenas no brincar, que a criança ou o adulto fruem sua liberdade de criação. … o brincar e a experiência cultural podem receber uma localização caso utilizemos o conceito do espaço potencial existente entre a mãe e o bebê.(Winnicott, 197; pag.79)

 

É na área intermediária entre o mundo subjetivo e a realidade que se faz o ato criativo expresso no gesto do bebê. A mãe que não se coloca como objeto subjetivo para o seu bebê não permite que esse experimente o mundo como uma construção sua e viva a ilusão nessa área intermediária entre o sonho e a realidade. O bebê primeiro tem que ser iludido para poder mais tarde perder a ilusão de onipotência e adquirir a capacidade de viver criativamente.

 

É no brincar, e somente no brincar, que o indivíduo, criança ou adulto, pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral: e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o eu (self). (Winnicott, 1975; pag. 80)

 

O existir criativo emerge do estado de relaxamento e de não integração que é a base do brincar. A mãe ao atender as necessidades do bebê de forma continua e constante ajuda o bebê aos poucos à tomar consciência de si e passar a integrar os elementos motores e eróticos no estado unitário do EU SOU. Ela é um espelho que reflete os vários estados de SER do bebê, acompanhando o ritmo do bebê, oferecendo e oferecendo-se no que ele precisa, atendendo as suas necessidades e ajudando-o a  integrar esses estados.

 Nessas condições altamente especializadas, o indivíduo pode reunir-se e existir como unidade, não como defesa contra a ansiedade, mas como expressão do EU SOU, eu estou vivo, eu sou eu mesmo. Nesse posicionamento tudo é criativo. (Winnicott, 1975; pag. 83)

 

 

 

 

 

 

 

Conclusão

 

 

Finalizando gostaria de buscar na literatura exemplos que nos ajudem a caracterizar o sentimento profundo de EU que é a base do verdadeiro de self em oposição a um sentimento de irrealidade e futilidade próprios de uma personalidade tipo falso self.

 

Clarisse Lispector, no seu livro A Hora da Estrela nos oferece na personagem nordestina Macabéa um exemplo de individuo que nutre esse sentimento profundo de EU (self) de que nos fala Winnicott, base do verdadeiro self. Macabéa ao falar de si diz:

 

A verdade é sempre um contato interior e inexplicável. A minha                                        vida a mais verdadeira é irreconhecível, extremamente interior e                                                       não tem uma só palavra que a signifique.

A Hora da Estrela

Clarisse Lispector

 

Em contraste a escritora americana Silvia Plath em suas poesias nos transmite o sofrimento de alguém que foi traumatizada e nunca pode comunicar a sua dor, e seus sentimentos de frustração pelas perdas sofridas inerentes do crescimento e do viver. Aprendeu a reprimi-los para proteger aqueles que amava do contato com a sua infelicidade. Submetida a realidade ela ocultava o seu verdadeiro self com a certeza de que causaria um sofrimento insuportável para quem amava e por isso queria poupar. O trauma não é a situação traumática em si mas a impossibilidade de comunicá-la ao outro. É na literatura que ela encontra refúgio e com suas poesias pode fazer falar o seu verdadeiro self e dar voz a sua dor. É disso que nos fala os poemas que se seguem: 

 

 

You ask me why I spend my life writing?

Do I find entertainment?

Is it worthwhile?

Above all, does it pay?

If not,then,is there a reason? …

I write only because

There is a voice within me

That will not be still.

 

                                    Silvia Plath

 

 

………………………………………………………………………..

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

I Thought That I Could Not Be Hurt

 

I thought that I could not be hurt;

I thought that I must surely be

impervious to suffering –

immune to mental pain

or agony.

 

My world was warm with April sun

my thought were sprangled green and gold;

my soul filled up with joy, yet felt

the sharp, sweet pain that only joy

 can hold.

………………………………………………..

 

Then, suddenly my world turned gray,

and darkness wiped aside my joy.

A dull and aching void was left

where careless hands had reached out to

destroy

my silver web of happiness.

The hands then stopped in wonderment,

for, loving me, they wept to see

the tattered ruins of my firmament.

…………………………………………………….

                                              

                                               Silvia Plath

 

 

No seu livro auto biográfico intitulado The Bell Jar Silvia narra o seu colapso nervoso. O colapso nervoso, segundo Winnicott pode ser um sinal de saúde na medida em que é uma tentativa por parte do indivíduo de usar o ambiente para  restabelecer uma existência sentida como real, fazendo brotar o seu eu verdadeiro. (Winnicott, 1990).

 

Silvia ao procurar reafirmar-se no mundo a partir do EU SOU em termos de sentir real se depara com a impossibilidade de viver no mundo construído com base num falso self.

 No caso de Silvia o seu colapso nervoso e o processo posterior de elaboração que se segue ao escrever The Bell Jar não a levaram em direção a uma vida mais autêntica mas ao suicídio. Podemos supor que o suicídio foi para Silvia a única forma possível de  afirmar o seu eu verdadeiro e assim  finalmente se sentir real.  Silva toma nas mãos a autoria do seu destino e decide morrer para não se deixar matar.

 

Suicídio nesse contexto é a destruição do self total para evitar o aniquilamento do self verdadeiro. (Winnicott, 1990; pag. 131)

 

As duas passagens que se seguem foram retiradas do seu livro auto biográfico The Bell Jar. Nelas podemos  sentir a intensidade do seu drama pessoal. Nessas passagens ela descreve sentimentos de irrealidade e futilidade após receber um prêmio literário pelo seu trabalho como escritora iniciante numa revista de moda em Nova York:

 

I guess I should have been excited the way most of the girls were, but I couldn’t get myself to react. I felt very still and very empty, the way the eye of a tornado must feel, moving dully along in the middle of the surrounding hullabaloo.

 

I felt like a recehorse in a world without race-tracks or a champion college footballer suddenly confronted by Wall Street and a business suit, his days of glory shrunk to a little gold cup on his mantel with a date engraved on it like the date on a tombstone.

                                                                                  The Bell Jar

                                                                                  Silvia Plath

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Referência Bibliográfica

 

Miller, Alice: For Your Own Good: New York: The Noonday Press,  4 Ed., 1992.

Lispector, Clarice : A Hora da Estrela, Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

Plath, Silvia: The Bell Jar, London: Faber and Faber, 1999.

__________: Poemas, São Paulo:  Iluminuras, 1991.

Winnicott, D.W.  “Distorções do ego em termos de falso e verdadeiro self”, in Winnicott (1960): O Ambiente e os Processos de Maturação, Porto Alegre: Artes Médicas, 1990.

______________ Natureza Humana: Parte IV, Cap.1. Rio de Janeiro: Imago, 1990.

______________ Natureza Humana: Parte IV, Cap. 4. Rio de Janeiro: Imago, 1990.

______________ “O brincar: a atividade criativa e a busca do eu (self)”, in Winnicott (1971): O Brincar e a Realidade, Rio de Janeiro: Imago, 1975.

 

[1] A primeira mamada teórica é a apresentação do seio para o bebê. O bebê excitado pela necessidade da fome tem um impulso e vai  na direção do seio; ele está pronto para criar o seio e a mãe presente torna possível para o bebê ter a ilusão de que o seio foi criado por ele, a partir desse impulso e dessa necessidade. 

[2] Objeto subjetivo é a mãe ambiente que está em total sintonia com o seu bebê, criando a ilusão de que tudo que chega a ele, satisfazendo das suas necessidades, é criado por ele e parte dele e por isso não denúncia o seu caráter externo.

[3] Ilusão de Onipotência é o sentimento de que tudo acontece naturalmente advindo das necessidades do bebê. O bebê  tem a ilusão de que ele cria e controla os acontecimentos do mundo.

[4] O gesto espontâneo é a expressão de um impulso.


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