A Ditadura do Gozo

A DITADURA DO GOZO

 

Resumo

Os casos extraconjugais são:

Uma expressão da nossa liberdade sexual?

Do nosso interesse na diversidade?

Ou

Uma forma mais fácil de não nos tornarmos mais íntimos com os nossos parceiros?

Vivemos implicados nos paradoxos da nossa natureza humana e nos desafios para sustentar o romance e as relações de parceria.

Hoje queremos tudo ao mesmo tempo: o amor, a segurança, a fidelidade absoluta, a monogamia e as vertigens da liberdade.

Historicamente percebemos que o que restou do amor romântico foi a robustez do erótico a qualquer preço.

O sentimento mais frágil que liga o casal, o compromisso, a cumplicidade, a intimidade, o cuidado, o interesse genuíno pelo outro, a segurança, o conforto, a convivência, a familiaridade estão condenados à brevidade, à crise.

São esses sentimentos de ambivalência que pontuam as cenas da vida moderna.

Palavras-chave: amor, desejo, idealização, individualidade, infidelidade, fidelidade, sexualidade, casal, relacionamento.

Introdução

Os casos extraconjugais são

Uma expressão da nossa liberdade sexual?

Do nosso interesse na diversidade?

Ou

Uma forma mais fácil de não nos tornarmos mais íntimos com os nossos parceiros?

Vivemos implicados nos paradoxos da nossa natureza humana e nos desafios para sustentar o romance e as relações de parceria.

Hoje queremos tudo ao mesmo tempo: o amor, a segurança, a fidelidade absoluta, a monogamia e as vertigens da liberdade.

Historicamente percebemos que o que restou do amor romântico foi a robustez do erótico a qualquer preço.

O sentimento mais frágil que liga o casal, o compromisso, a cumplicidade, a intimidade, o cuidado, o interesse genuíno pelo outro, a segurança, o conforto, a convivência, a familiaridade estão condenados à brevidade, à crise.

A fragilidade dos vínculos – Apertar e afrouxar laços

Na modernidade, homens e mulheres vivem a fragilidade dos vínculos humanos. À medida que anseiam pela segurança do convívio, num movimento desesperado por relacionar-se, desconfiam da condição de estar ligados permanentemente. Vivem, assim, atormentados por desejos conflitantes de apertar os laços e, ao mesmo tempo, mantê-los frouxos. Esses profundos sentimentos de ambivalência revelam o temor dos encargos e tensões que a condição de estar ligado pode trazer. A perda da liberdade resulta num preço excessivo e inaceitável.

Paralelamente, os relacionamentos se encontram no topo da agenda existencial do indivíduo.

No desejo de relacionar-se, o indivíduo procura paradoxalmente manter os vínculos frouxos, na tentativa de não limitar a liberdade de que necessita. A incapacidade de escolha entre esperanças e temores paralisa o ser humano. A inabilidade de agir é resultado da dificuldade de suportar os momentos mais amargos que estão simultaneamente relacionados ao desfrutar das delícias de um relacionamento.

Comer do bolo e conservá-lo

No mundo moderno, queremos comer do bolo e ao mesmo tempo conservá-lo. Desfrutar dos bons momentos sem o ônus dos momentos amargos. Satisfazer sem oprimir, permitir sem desautorizar. O que aprendemos é: se deseja relacionar-se, mantenha distância; se quer usufruir do convívio, não assuma nem exija compromissos. Deixe todas as portas abertas. O compromisso de longo prazo é uma grande armadilha que deve ser evitada no esforço por relacionar-se.

A vida nos foi dada para vivê-la e todos queremos ter uma vida rica de significados, ou seja, gostaríamos de sustentar a paixão e o amor. Muitos de nós temos o desejo de nos envolver com as questões do amor e de sustentar a paixão com as pessoas.

 

O amor romântico

O movimento romântico revolucionou o pensamento, assim como as artes em direção à paixão, à tragédia e ao significado pessoal da vida. Segundo Isaias Berlim, foi ”o mais profundo e duradouro movimento de mudança na vida do Ocidente”.

Iremos explorar os caminhos percorridos, a maneira como essa mudança histórica transformou a experiência da vida individual das pessoas no nosso tempo.

Cabe aqui falar das idealizações como uma manifestação metafísica do mundo, ou seja, uma construção imaginária. A idealização corresponde ao empobrecimento da vida, na medida em que restringe a capacidade de amar o outro tal como ele se apresenta na sua individualidade.

No amor romântico, parte-se da premissa de que somos uma fração e precisamos encontrar nossa outra metade para nos sentir completos.

O modo de amar característico do amor idealizado carrega em seu bojo o ser altruísta, desinteressado de si, aquele que se ocupa de fazer o bem ao ser amado. Parece destituído de qualquer satisfação individual – é um permanente doar-se ao ser amado.

A paixão

A paixão é o sentimento de que a vida vale a pena ser vivida.

O romance surge em relação ao amor como um estado particular de amor, no qual existem poderosas correntes eróticas. O romance é o modo mais próximo do estado do apaixonamento, de cair de paixão, diferentemente do estar amando.

O tipo de significado associado ao apaixonar-se é o sentimento de que a vida vale a pena ser vivida e que eventos importantes podem acontecer nesse estado de apaixonamento. No entanto, existe um aspecto inerente ao romance que é a instabilidade. A tragédia é sempre o contraponto desse mesmo estado, caindo-se num estado de “blues” nostálgico, desconforto ligado à paixão, seguido de expressões de sentimento de culpa, pena e tristeza. Essas palavras estão sempre relacionadas às narrativas do romance.

No entanto, o que as pessoas no nosso tempo sabem e falam sobre o romance e o que perpassa no aspecto maior da cultura de massa é que o apaixonar-se vem e vai embora, vai perdendo seu colorido e tem a tendência de ser algo passageiro, de curta duração.

Uma paixão autêntica é difícil de encontrar e muito mais difícil de manter. Facilmente degenera para outra coisa muito menos cativante, menos exuberante, como, por exemplo, respeito sóbrio (distante), diversão puramente sexual, companhia previsível (por obrigação), ódio, culpa ou vitimização.

E o casamento nesse modelo idealizado?

Na idealização do casamento promete-se o amor eterno. Podemos prometer atos, mas não sentimentos, pois estes são involuntários. Portanto, a promessa de sempre amar alguém significa: enquanto eu te amar, demonstrarei com atos o meu amor; se eu não mais te amar, continuarei praticando esses mesmos atos, ainda que por outros motivos. De modo que, na cabeça dos nossos semelhantes, permanece a ilusão de que o amor é imutável e sempre o mesmo (NIETZSCHE, 2000, pág. 59).

A questão que ganha contorno nesse fragmento é o caráter incessante da transformação a que estamos todos submetidos. Mudam-se os nossos sentimentos e mudamos todos nós ao longo da vida. Assim, a permanência com a qual se compromete o futuro do casal é exclusivamente referida ao desempenho dos papéis sociais.

Contrariando as aparências, a concepção de Nietzsche não exclui a possibilidade de se contrair o matrimônio, desde que se considere a desconstrução da idealização do amor e explicite as diferenças entre os cônjuges.

O amor idealizado na contemporaneidade tem se caracterizado por um contínuo aumento das demandas projetadas sobre o cônjuge. Nietzsche olha para o casamento como um empreendimento possível, desde que não se solicite “tudo” dele ao mesmo tempo.

Quando a relação amorosa é exclusiva, isto é, totalizante na vida amorosa e sexual dos parceiros, é que se passa a buscar uma companheira ou um companheiro ideal. No amante idealizado se encontra tudo o que um homem busca numa mulher e vice-versa.

A paixão dura ao longo do tempo?

O esforço para entender os aspectos relacionados à experiência e à sustentação do romance nos remete a profundas questões dialéticas, envolvendo fantasia e atualidade, constância e mudança, corpo e emoção, amor e ódio, controle e descontrole, vitimização e culpa, segurança e risco.

Um aspecto intrigante nos trabalhos e observação clínica de Freud é que a condição que mais poderia interferir na completude da potência erótica na experiência de desejo era a questão do amor em si. Onde existe amor não pode existir desejo e vice-versa.

Era de se esperar que a liberdade sexual dos homens e mulheres hoje, depois da revolução sexual dos anos 1960, pudesse nos tornar capazes de amar e desejar junto ou separadamente, sem conflitos internos.

Mas, julgando pela quantidade de artigos nas revistas populares que tentam de alguma forma colocar tempero de volta nas relações que perderam seu romantismo, vemos que aquilo que perturbava os nossos antepassados no começo do século 20 continua muito presente nos dias de hoje.

Percebemos, então, que as pessoas do tempo de Freud, assim como no nosso tempo, têm dificuldades de integrar amor e excitação sexual, desejo e compromisso.

Apesar dessa mudança extraordinária que o trabalho de Freud nos ajudou a colocar em foco – isto é, de uma sexualidade que ficava à margem e à sombra para uma sexualidade que é jogada à nossa cara –, ainda hoje muitos homens e mulheres mantêm a divisão de que onde existe amor não pode haver desejo e onde há desejo, o amor não pode estar presente.

Outro aspecto da psicologia humana que somos forçados a destacar como algo essencial é o sentido de moradia. É difícil imaginar uma pessoa que não se oriente por algum sentido de moradia, pela sensação de saber de onde vem, onde está inserida e para onde deseja retornar. Não é acidental que as palavras família e familiar tenham as mesmas raízes.

Procuramos continuidade, permanência, como uma forma de nos sentir ancorados e seguros, e cada um de nós tem uma forma particular de estabelecer esse espaço que chamamos de moradia.

O recém-nascido e sua mãe, estando em constante sintonia, produzem um lugar onde a mãe oferece ao bebê um ambiente de suporte particular e observa suas necessidades afetivas e sensoriais. A partir dessas primeiras experiências de segurança e suporte afetivo do ambiente, um profundo sentimento de conexão e pertencimento começa a ser evocado, originado na vivência de se sentir em casa, na presença de alguém que vem de onde viemos ou com quem construímos esse sentimento de segurança e de local. É um sentimento que reflete um tipo de conexão, um ressoar entre o que está dentro e o que está fora de nós, ligando o passado e o presente, o que somos, o que fomos e o que desejamos ser.

No entanto, existe também um aspecto obscuro e arquetípico para esse senso de referência e de segurança, que é um desejo de transcender, de se aventurar, de escapar desse lugar.

Parece, portanto, que existe um contraste fundamental entre o ordinário e o transcendente, entre segurança e aventura, entre o familiar e o novo, que perpassa toda a experiência humana.

A Tradição perpetua a preservação e a Traição é da ordem da transcendência

Cada um desses pontos díspares aponta para dois aspectos fundamentais que marcam o desejo conflitivo do homem: por um lado, o desejo de segurança e pertencimento de algo que é completamente conhecido e previsível, uma âncora com que você pode contar e que moldura a vida e dá continente, como Erich Fromm coloca, por “devoção e orientação”; por outro lado, o desejo de romper com o que é estabelecido, com o familiar, para dar passos para além das fronteiras na busca de encontrar algo imprevisível, inspirador, não conhecido. O romance emerge da convergência dessas duas correntes.

Podemos pensar também como as duas palavras “Tradição” e “Traição” aparecem interligadas pela semelhança da escrita e fonética, bem como no seu significado mais profundo. A tradição perpetua a preservação e a traição é da ordem da transcendência. Na Bíblia, Abraão trai seu pai e sua cultura para estabelecer-se numa “terra que é sua”; Isaac transgride em sua relação com Ismael; Jacó transgride em relação a Esaú; Raquel, em relação a Lia, e José transgride em relação a Judá.

Portanto, transgredir é transcender. O traidor é, por sua vez, um transgressor. Ele propõe outra lei e outra realidade.

“Não haverá tradição sem traição, nem traição sem tradição.” (BONDER, 1998).

Quando compreendemos a traição como uma necessidade da alma para sua evolução e individuação, o caminho da imortalidade do corpo é traçado.

Do Iluminismo ao sujeito pós-moderno

Continuando a explorar os caminhos da história, chega-se ao sujeito do Iluminismo com Descartes, “Penso, logo existo”. Este é um sujeito que se reconhece como alguém que pensa, duvida, sente, nega, afirma, imagina.  Esse sujeito, mesmo ao longo do tempo, possui um núcleo que permanece o mesmo.

Na concepção sociológica, a identidade do indivíduo preenche o espaço entre o sujeito, seu núcleo e o mundo. Portanto, o núcleo interior está em constante relação com o meio no qual ele vive e se forma nessa relação. Não é o sujeito autônomo e autossuficiente do Iluminismo. Ele influencia e é influenciado pelo meio. A identidade é formada num diálogo contínuo com o mundo.

O sujeito pós-moderno é um sujeito fragmentado, composto não de uma única, mas de várias identidades, algumas vezes contraditórias ou não resolvidas. O sujeito não tem uma identidade fixa, essencial ou permanente. A identidade, ao contrário, torna-se uma celebração móvel, formada e transformada continuamente.

 

Princípio identitário e sexualidade

A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia. Essa identidade, quando narrada, torna-se coerente a posteriori, pois passou por períodos de conflitos e incoerências.

A identidade é arduamente construída ao longo da vida do indivíduo e não mais por pertencer àquela família, àquela comunidade. O aspecto positivo é a possibilidade de escolha. A identidade não tem mais o aspecto determinístico de antes.  Assim, no mundo moderno, podemos contar com um número maior de casamentos, identidades profissionais, mudanças de religião, mobilidade de lugar.

O princípio identitário é consistente com uma convicção mais ampla ou geral do nosso tempo, onde a sexualidade é central para o nosso ser, para a nossa vida, e a felicidade depende em grande parte de sua expressão e da gratificação sexual.

A crença de que o nosso ser se reflete e se expressa na nossa sexualidade nos faz buscar o amor romântico dentro ou fora das nossas relações estáveis, sendo essa ocupação corrente nas nossas vidas.

A gratificação sexual é um reflexo e expressão da nossa sexualidade e da nossa identidade. O sentimento de identidade depende de como expressamos nossa sexualidade e somos gratificados por ela, o que faz com que persigamos esse sentimento de romance dentro e fora de nossas relações – isso é um trabalho que resume toda uma vida.

Passamos a ser, como indivíduos, a expressão dessa sexualidade onde tudo está relacionado. Por conta dessa convicção vem a importância do romance na vida das pessoas. O romance tem de estar dentro das relações ou então será procurado fora do relacionamento que foi construído no longo prazo.  Assim, a busca do romance torna-se algo que todos empreendem, como se ter romance, gratificação sexual, satisfação fosse o mote da vida dos indivíduos.

Previsibilidade – Castelo de areia

O sentimento de segurança e familiaridade não é uma condição dada, é antes uma condição construída. Esse sentimento profundo e mútuo está relacionado ao ser familiar; não é uma coisa previsível, mas é uma fantasia elaborada.

Se um casal que tem uma relação estável de repente vê isso se quebrar, acontecerá de um dos dois dizer que não esperava por aquilo, que não conhecia seu parceiro. Assume-se que a experiência que a pessoa está tendo é igual à do outro. A condição de que estão os dois na mesma sintonia é o que dá a sensação de segurança, previsibilidade e familiaridade. Tudo isso é um castelo de areia: a mulher não era tão previsível assim e o marido não era tão derrotado assim. O outro, na verdade, não está totalmente disponível e tem pensamentos e sentimentos que não são revelados.

Uma corrente da psicologia acredita que o indivíduo tem um núcleo central, contínuo e previsível, que procura a validação frente ao outro. Outras novas correntes teóricas descrevem o ser muito mais fluido, inacessível, descentrado e descontínuo. Para essa nova perspectiva não é o perigo e a aventura que têm de ser explicados, mas sim a previsibilidade e a segurança. O desejo de atingir e chegar a essa coisa inacessível e o sentimento de posse do que é conhecido são uma ilusão que funciona para conter o risco e a incerteza.

É preciso ter certo cuidado de estar sempre se oferecendo para satisfazer o desejo do outro. À medida que se é convidado a participar em tornar o outro previsível, mata-se o desejo e a paixão romântica; é uma forma que prevalece nas relações de longo prazo.

Como se trabalha para matar o desejo na relação?

Quando fazemos de tudo para tornar a relação previsível, quando queremos saber mais e mais do outro. Temos aqui um paradoxo: à medida que isso traz segurança, traz também a coerção e a ilusão. O hábito mata o desejo.

Todos nós provavelmente fazemos habituações com as pessoas que amamos, mas imagine como isso causa sentimentos de injustiça e fúria, pois quando fazemos da pessoa um hábito, reduzimos a complexidade do indivíduo e sua humanidade. Hábito é algo útil para afazeres mecânicos, como lavar a louça, escovar os dentes. Mas o hábito é uma rua sem saída que mata a relação.

Essa forma de levar o hábito para a relação do amor romântico não faz parte da natureza do amor. É uma forma de estabelecer uma proteção em defesa da vulnerabilidade, que é inerente ao amor romântico.

Previsibilidade e segurança são uma necessidade e uma forma de conhecer o outro e de nos conhecermos. Esse tipo de sentimento é atrativo para crianças, mas para os adultos é difícil de acontecer. Dessa maneira, temos de nos esforçar para estabelecer o sentido ilusório de permanência e previsão. Quando os pacientes nos procuram porque o casamento está morrendo tentam mostrar como a previsibilidade é importante para eles e trabalham insistentemente para manter a relação dentro desse parâmetro.

Uma ligação segura com o outro não é uma coisa terrível, não é um modelo terrível de se estar numa relação romântica adulta – exceto se for baseada na fantasia e ilusão produzida pela busca de segurança. O ruim não é a estabilidade afetiva, mas a ilusão de completude advinda da segurança produzida por essa fantasia, assim como a crença de que somos uma fração e precisamos encontrar nossa outra metade para nos sentir completos.

O amor, por natureza, não é algo de que se possa ter certeza ou com o qual se possa contar, mas queremos que tenha uma segurança e uma certeza que não fazem parte dele.

Lacan ilustra bem a degradação do romance a serviço dessa segurança ilusória quando diz que o amor é dar algo que você não tem para alguém que você não conhece.

 

Estamos perdendo nossos valores mais tradicionais?

Isso é uma fantasia. Não estamos perdendo valores, porque ninguém vive sem eles. O que há é uma reordenação dos valores.

A palavra de ordem desse século é parceria, estamos trocando o amor de necessidade pelo amor de desejo.

“Eu tenho prazer, alegria, respeito em estar junto, e não estou junto porque sou só uma parte, onde você tem a responsabilidade pelo meu bem-estar.”

As pessoas estão aprendendo, com a nova tecnologia, a permanecer mais tempo em seus entretenimentos e tarefas individuais, portanto, estão perdendo o medo de ficar sozinhas, o que cria a possibilidade de conviver melhor consigo mesmas.

Quando amamos ou quando nos sentimos amados, reconhecemos a dignidade de portar um valor singular, insubstituível e não descartável.

Afinal, onde anda hoje em dia essa pulsão chamada amor?

O amor não tem mais porto, não tem onde ancorar, não tem mais a família nuclear para se abrigar.

O homem vai mudando o mundo e depois tem de ir se reciclando, para se adaptar ao mundo que construiu. Assim, estamos entrando na era da individualidade.

O desejo nos torna capaz de amar, é ele que pretendemos realizar por meio da escolha amorosa.  Como disse Freud, o desejo consiste no hiato entre o objeto imaginado que vai me trazer a satisfação e a satisfação efetivamente obtida. Trata-se, portanto, de uma satisfação imaginária e, assim, impossível de ser alcançada.  Nesse sentido, o prazer sexual impossibilita a realização de um desejo de fusão com o outro. Assim, o amor autêntico é a renúncia de qualquer posse do outro, de qualquer “com–fusão”.

No amor eu descubro que o outro é destinado a outras existências. O amor é liberdade e libertação.

A nova forma de amor, ou mais amor, tem nova feição e significado. Visa à aproximação de dois inteiros e não à união de duas metades. O mito da cara–metade, “você foi feito para mim”, do destino e da fatalidade, ”nosso amor estava escrito nas estrelas”, “da eternidade”, é hoje um mito remanescente.

Os atos de amor precisam de tempo para fluir e construir uma história a dois. O amor é ato de desvelamento da subjetividade do outro como liberdade e alteridade.

Uma boa relação afetiva só é possível para aqueles que conseguirem trabalhar sua individualidade.

Mesmo assim, continuamos ansiando por uma felicidade impalpável, na medida em que temos dificuldade de abrir mão das ilusões que amamos.

 

 

 

A ditadura do gozo

Diversas coisas davam sentido ao mundo do indivíduo: religião, trabalho, convicção intelectual, artes, política. O avanço gigantesco da mídia, sobretudo com vistas a divertir, a não comprometer, a vender, aos poucos invadiu o imaginário popular, impondo uma percepção de mundo sem compromisso com o futuro.

A moral do espetáculo tem duas facetas: a vida como entretenimento e a felicidade das sensações que se concentram no próprio corpo. Não existe mais o contentamento em ser feliz sentimental ou civicamente.

A cultura capitalista moderna descobriu que o sexo bem feito pode nos tornar mais felizes, saudáveis e rentáveis.  A sexualidade passou, assim, a ter uma nova importância na vida das pessoas.  Hoje, o gozo tornou-se uma obrigação. Paradoxalmente passamos a justificar a busca da felicidade na realização do ter prazer a qualquer custo, e a considerar infeliz todo aquele que não é feliz.

Para ser feliz é necessário o gozo intenso, o gozo pelo êxtase. Sabemos que o êxtase corporal é breve, provisório. Sua manutenção está ligada à submissão a padrões de beleza, preocupação em relação à competência sexual, ao tamanho do pênis e ao orgasmo feminino.

A brevidade do gozo das sensações está em sintonia com a provisoriedade da realidade apresentada pela mídia.

No romantismo do século 19, era possível passar dois anos sem ver a mulher amada e gozando por isso: inventando histórias, escrevendo música ou poesia.

Não seria o próprio sexo transformado em objeto idealizado na contemporaneidade, ocupando assim o lugar do amor, idealização presente no início do século?

E o que substituirá o amor?

As forças que regem os aspectos do relacionamento humano ainda são um mistério de difícil resolução. O frio na espinha, a excitação por um sexo ilícito e perigoso que atrai muitos homens e mulheres, é um mistério ainda sem explicação.

As contradições inerentes às nossas experiências amorosas nos levaram a refletir neste texto sobre as dimensões irracionais do amor, aceitando mais complexidade e mais ambiguidades nas relações. Esses aspectos nos conduzem a uma maior flexibilidade para abordar diferentes valores e significados na singularidade de cada um.

Não seria o caso de buscar uma união sem fusão, sem separação e sem subordinação. Nem a comunhão de corações e fusão de destinos, nem a trivialidade de um contrato familiar, econômico ou erótico.

A associação entre amor e paixão, fidelidade e transgressão, parece ter tornado mais penoso o fracasso amoroso, porque as expectativas em torno do casamento também se tornaram maiores.

O casamento da modernidade se baseia na liberdade de escolha e não mais nos valores tradicionais das instituições religiosas, sociais e familiar que o condicionavam e lhe ofereciam suporte. O casal liberto das antigas tradições fica agora dependente de sentimentos inconstantes. O casal fica entregue a sua própria solidão e se vê obrigado a dar sentido a uma relação fundada na fragilidade de um sentimento passageiro.

O amor–paixão longe das interdições religiosas ficou entregue ao pessimismo, ao sofrimento, ao fracasso, à perda da chama destinada a se apagar. O casamento tradicional, em oposição ao casamento moderno, desobrigava o casal a justificar a união por meio da paixão, valorizando a obrigação de respeitar e solidarizar o outro por toda a vida – forma de amor mais próxima de uma amizade terna do que da paixão. Esse sentido religiosamente imposto ao casamento se mostra mais realizável do que a “com–fusão” de destinos proposta pelo amor–paixão.

Com o declínio dos grandes ideais religiosos e políticos, o amor aparece como uma das poucas coisas que fundamentam o sentido real da vida, um fim em si mesmo. Morremos e matamos por amor, mais do que pela pátria, pela revolução ou por Deus.

O amor pensado pela perspectiva da repressão reclama, em contrapartida, pela elaboração de uma ética (ou erótica) da libertação. A ideia de dependência, a separação, as inquietações, explicam as atitudes dos que se afastam da paixão por medo de fracasso e de sofrimento.

No entanto, se a lógica do amor consiste na eleição exclusiva do outro como um ser absoluto – “ele e mais ninguém” –, então essa libertação que escraviza é inevitável.

 

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