O Casal e a Comunicação em Crise

O CASAL

E A COMUNICAÇÃO

EM CRISE

A certeza

De tudo, ficaram três coisas:

A certeza de que estamos sempre começando…

A certeza de que precisamos continuar…

A certeza de que seremos interrompidos antes de terminar…

Portanto devemos:

Fazer da interrupção, um caminho novo…

Da queda, um passo de dança…

Do medo, uma escada…

Do sonho, uma ponte…

Da procura, um encontro.

Fernando Pessoa


Introdução

Um grande desafio: um homem, uma mulher…

A idéia do grupo de estudar a comunicação entre os casais surgiu por dois motivos. O primeiro: é parte da nossa profissão ajudar casais a restruturar relacionamentos que vão mal. O segundo: em nossas observações clínica e porque não dizer também nas nossas experiências particulares de casal, chegamos a conclusão, que por mais variadas que sejam as queixas dos casais que nos procuram, a matriz dos desentendimentos está na sua maioria relacionada a dificuldade de comunicação. Essa dificuldade de comunicar entre parceiros resulta em constantes desencontros e frustrações das expectativas de compreensão e solução de um problema.

Assim esse trabalho é uma tentativa de aborda a dificuldade de comunicação dos casais presente com frequência nos conflitos conjugais.

O objetivo do nosso trabalho é demonstrar que é possível viver um bom desentendimento sem que a separação seja uma ameaça ou um fantasma que ronda as famílias.

Os casais que estão dispostos a superar os conflitos devem começar por reconhecer que as diferenças entre os sexos existem nas formas de pensar, comunicar e agir. São duas naturezas muito destintas que se juntam. Explorar essas diferenças de modo a melhorar a comunicação é trazer qualidade à relação. O sentido maior da comunicação é a expressão de sentimentos. Não existe nada mais longe da verdade que a expectativa tanto de homens quanto de mulhers que pelo simples fato de se gostarem; pensam, comunicam e reagemm da mesma forma.

Daí o desafio; como comunicar/expressar sentimentos de forma a acolher as diferenças, ampliando o diálago e aumentando possibilidades de solucionar problemas superando os conflitos.

Iremos abordar os conflitos conjulgais a partir a dificuldade de comunicação entre o casal. Na nossa argumentação iremos utilizar a Teoria Sistêmica e a Cibernética de Segunda Ordem como um instrumento que traz um novo olhar para compreender o comportamento humano como produto de suas inter-relações dentro dos sistemas dos quais faz parte. Dessa forma a visão carteziana de causa e efeito tende a explicar a dificuldade de comunicação entre os casais pela diferença entre os gêneros sem considerar que como seres humanos vivemos emaranhados em múltiplos sistemas simbólicos com diferentes lógicas de significados e de organização. A comunicação é uma prática, uma criação que organiza um campo de sentido.

A Teoria Sistêmica e da Cibernética na medida em que enfatiza os contextos e a causalidade circular[1], favorece uma espécie de interdisciplinaridade, onde o foco muda do indivíduo para os sistemas humanos; do intrapsíquico para o relacional. Nesse sentido, a terapia sistêmica difere, radicalmente, tanto do modelo médico como do modelo psicodinâmico em sua explicação do comportamento sintomático.

O sistema terapêutico passa a ser definido por aqueles que estão envolvidos em conversação em torno de um problema. Esses sistemas são determinados por uma dinâmica relacional organizada em torno de significados compartilhados. É nessa dinamica que residem os problemas pelos quais os casais buscam a terapia. Uma tal concepção coloca uma intensa ênfase sobre a linguagem como uma rede de significados incluindo o indivíduo, as comunidades e outras organizações sociais. Apresenta-se como uma prática colaborativa que se constrói a partir de dentro do próprio contexto dos participantes.

Cada pessoa tem o seu sistema de regras reguladoras e constitutivas pelo qual interpretam as ações das outras pessoas e derivam que ações são possíveis como seqüência. O padrão de atos comunicacionais é uma função da inter-relação das regras das pessoas envolvidas.

A capacidade de melhor comunicar-se, de resolver os conflitos, reorganizar a relação, reconquistar equilíbrio e harmonia envolve, segundo Grandesso (2000) “comparar o desconhecido com o conhecido, o não familiar com o familiar, usar as categorias de compreensão de um determinado domínio da experiência como padrão a partir do qual analisamos a experiência de outro domínio”.

A chave da compreensão do casal não está na convivência pacífica, mas na possibilidade de viver suas diferenças. O desafio está, sim, na capacidade de administrar diferenças e, mesmo, de aceitá-las.

O grande impasse e a maior riqueza do casamento é conviver com alguém que é o oposto de si e preservar a individualidade sem anular o outro.

Comunicação entre Parceiros

“De acordo com a nossa tradição,

uma palavra pode proteger ou destruir uma pessoa;

o poder de uma palavra na boca

é o mesmo de uma flecha no arco…”

(A origem do mundo segundo os Xavantes

A terra dos mil poros

Kaka Werá Jecupé)

Apesar das profundas mudanças sociais e culturais ocorridas no mundo das últimas décadas, o “par romântico” continua a representar o grande ícone dos nossos tempos.

Nenhum casal inicia uma relação a partir do zero. Cada indivíduo tem um sistema de crenças e expectativas em relação ao casamento estruturado a partir da experiência na família de origem e de outras experiências matrimoniais e de casal, além de estar imerso na cultura de uma comunidade e sociedade específica. Esses valores permeiam e condicionam os nossos modos de conceber o casamento e de ser marido e mulher, pai e mãe.

Quando esses indivíduos, que trazem consigo uma história familiar prévia que determinam razões de ser singulares, resolvem formar um casal, eles passam a estabelecer acordos que tentam conciliar os conteúdos de ambos os sistemas, tornando-se co-responsáveis pelo tipo de relacionamento que estabelecem. Esses acordos definem os padrões de comunicação e os estilos de comportamento e de aliança do casal.

Segundo Watzlawick (et al 1991) os padrões de relacionamento logram uma estabilidade que só é alcançada após uma exploração de todas as combinações possíveis até atingir a configuração apropriada. Assim as comunicações constituem-se em relação dependendo de trocas, operando de forma circular (não linear), numa reciprocidade constante. São reforçadas ou modificadas ao longo do tempo através das suas experiências juntos, numa construção compartilhada. Inclui valores, mitos, idéias e expectativas para o futuro. Esse sistema de crenças partilhado constitui o aspecto vital de uma relação: guia a interação do momento e o planejado do futuro. A cada importante transição, o paradigma é submetido a transformações para ir ao encontro das necessidades de reorganização do sistema.

As pessoas costumam firmar e afirmar seus próprios interesses, valores, modos de ser e agir, através de mensagens que são transmitidas e captadas através de micro-sinais. Estes podem, por exemplo, nos ensinar como as pessoas desejam ser tratadas, ou nos insinuar as condições para que o relacionamento se estabilize.

Segundo Watzlawick (et al 1991) é impossível não comunicar. Atividade ou inatividade, palavra ou silêncio, tudo possui valor de mensagem. Todo comportamento humano comunica alguma coisa (partindo-se do princípio de que não existe um não-comportamento). Então, sempre que há uma interação entre sujeitos, acontece uma comunicação, uma troca de mensagens.

A tradução adequada dos conteúdos das mensagens transmitidas exige que haja acordos previamente estabelecidos por ambas as partes. Esses acordos dizem respeito aos conteúdos aos quais se integram pressões sistêmicas provenientes do contexto familiar específico e social mais amplo dos quais se faz parte.

A seleção de parceiros é feita a partir da transmissão e captação desses sinais; sutis mas suficientes. A estabilidade do futuro relacionamento vai depender da maior ou menor capacidade de captação desses sinais.

Segundo o Novo Paradigma da Comunicação (Schnitman, 1996); a linguagem[2] constrói o mundo, não o representa. A comunicação[3] torna-se assim um processo construtivo que sucede o processo social primário.

Dentro desse novo paradigma, há duas posturas sobre a natureza da comunicação. Uma centrada na linguagem e a outra nas atividades como meios construtivos. A postura centrada na linguagem a tem como parâmetro de nossa existência, e diz que não há nada fora dela. O outro enfoque sustenta que vivemos imersos em atividades sociais e que a linguagem é somente um aspecto do mundo em que vivemos, isto é, uma parte que impregna a totalidade, mas que não coincide com ela. A esse enfoque chama-se de Construcionismo Social (Pearce in Schnitman, 1996).

O Construcionismo Social assinala que no processo das interações sociais nunca nos incorporamos a um só jogo. Por exemplo: você é filho do seu pai, colega dos seus colegas, … e assim participamos de sucessivos e simultâneos jogos. No entanto, em cada jogo desempenhamos papéis e utilizamos estratégias distintas.

Na medida em que esses jogos de trocas recíprocas se configuram na comunicação, se estabelece o contexto para os próximos eventos. Esse é um processo que nunca se cristaliza porque os contextos vão se configurando permanentemente.

Parece que quanto mais espontânea e satisfatória é uma relação, mais o aspecto relacional da comunicação recua para um plano secundário. Inversamente, as relações que produzem menor grau de satisfação e harmonia são caracterizadas por uma constante luta sobre a natureza das relações, tornando-se cada vez menos importante o aspecto de conteúdo da comunicação.

A expressão das emoções é um aspecto central da comunicação de casal. Cada casal deve chegar a um acordo sobre como se exprimem reciprocamente os sentimentos de amor, afeto e cuidado. Mal entendidos nesse plano são seguidamente fonte de tensão.

O Contrato Secreto das Relações Amorosas

“…penso que o casamento não é um processo que se desenvolve entre dois indivíduos, mas um contrato entre duas famílias”.

(Whitaker, ANO???)

Cada família tem uma identidade própria que pode evoluir e se modificar ao longo de sua história (ciclo vital). Essa identidade é constituída por acordos e crenças e funciona como uma espécie de centro de gravidade que, uma vez compartilhada, determina a maneira como os elementos de igualdade e diferença entre as personalidades dos membros da família são mantidos em um certo equilíbrio.

Um dos fenômenos que se percebe é que os acordos atuais são profundamente alicerçados em mensagens transgeracionais – aquelas passadas de “pai para filho”.

Alguns desses acordos constituem verdadeiros legados, e as pessoas sentem que devem cumpri-los ou que devem evitar certas oportunidades e desafios; por vezes, devem evitar justamente as oportunidades e desafios que poderiam levá-los a uma melhor integração pessoal e ao afrouxamento dos estreitos vínculos que determinados sistemas teimam em exigir.

A participação das pessoas em qualquer sistema pressupõe a adesão a um conjunto de regras, em grande parte secretas, não-verbais. As regras surgem a partir da repetição de comportamentos, que os torna previsíveis e esperados, parecendo absolutamente naturais. Criam-se seqüências típicas, de tal modo que cada um sabe muito bem “o que desencadeia o que” – ainda que não se detenha a pensar nisso – e quais os melhores momentos para desencadear-se o que se espera.

Uma vez estabelecidas as regras do jogo, elas tendem a se manter a serviço da subsistência do sistema. Aqui entram em cena os processos homeostáticos, referidos e estudados pela cibernética[4]. Esse princípio leva a que seus membros, quando busquem suas parcerias amorosas e sexuais, sejam movidos por uma profunda lealdade, sentindo-se atraídos por pessoas que, de alguma forma, contribuam para que seja mantido o modelo original.

A família de origem toma parte ativa numa espécie de bagagem secreta da qual ninguém consegue, jamais, se desfazer. Pode-se rever seus conteúdos, reorganizá-lo, aproveitar o que ele representa de bom, aprender a empregar positivamente o que, à primeira vista, pode parecer imprestável.

Não existem áreas da relação conjugal nas quais as famílias de origem dos cônjuges não consigam entrar e fazer pesar sua presença. Às vezes, trata-se de uma presença vistosa e invasiva; outras vezes, discreta ou até imperceptível. Contudo, a relação entre o grau de invasão e os efeitos produzidos não é tão estreita, e mesmo quando a primeira não aparece absolutamente, pode, apesar disso, exercer uma influência profunda e determinante.

As áreas de influência coincidem com as áreas da relação de casal e, para lembrar somente algumas, compreendem: a escolha do parceiro, o contrato conjugal, a sexualidade, a gestão do conflito, o nascimento e a educação dos filhos, a alimentação, a produção e a distribuição dos recursos econômicos, a separação e o divórcio.

Crise, Perigo e Oportunidade

“Viver é perigoso e carece de coragem”.

(Guimarães Rosa)

Fomos criados pensando que a felicidade tem a regra muito nítida de que nunca podemos brigar. Toda possibilidade de atrito é vislumbrada como ameaça, o começo do fim.

Homens e mulheres são educados de maneiras diferentes e introjetam comportamentos e valores da sua família de origem. Como duas pessoas, juntas, podem conviver sem atrito? E até que a morte as separe?

A realidade do relacionamento conjugal é que esse se baseia num EU mais um TU. E, EU mais TU é igual a NÓS. O respeito à individualidade é, por isso, condição fundamental no relacionamento. Isso, no entanto, é muito complicado e fruto de um trabalho paciente e rebuscado onde atritos são vivenciados. Se existe respeito ao outro, aprende-se a reconhecê-lo como diferente de si e todo esse processo pode tornar-se extremamente gostoso e enriquecedor para homens e mulheres.

O grande desafio e a maior riqueza do casamento não está na convivência pacífica, mas em administrar diferenças e mesmo, de aceitá-las.

Quando um casal entra em conflito, faz alguns movimentos segundo a realidade contextual em que vivem seus protagonistas.

Convivemos, dentro de nós, com diferentes discursos que constróem a nossa subjetividade de maneiras contraditórias.

Quando um problema é definido, geralmente, temos múltiplas versões descrevendo-o e interpretando-o de forma conflituosa, dificultando a obtenção de um consenso.

Cada pessoa tem sua versão, sua verdade. Fechando-se em torno de sua posição, tenta provar que sua versão é a correta, desqualificando e fechando as possibilidades para qualquer outra. Cada parte envolvida considera apenas a sua posição, agarrando-se a ela sem perspectivas de trocas.

A violência emocional tende a entrar em uma escalada, uma vez que nunca abrimos mão do direito de sermos levados em conta e legitimados em nossos pontos de vista.

A escuta se torna cada vez mais obstruída, tanto entre parceiros como cada um deles com suas vozes internas. Fala-se muito, e escuta-se pouco.

Só há vítimas.

O problema é localizado no outro. O outro nega e pode contra-atacar. Nessa briga por posições, o primeiro desafio que se configura para a construção de um sistema terapêutico colaborativo, é fundado na validação de múltiplas versões.

A saída está na negociação. Pode ser uma conversa ou uma briga, pode ser sobre algo pouco importante ou pode ser uma negociação pesada, em que os termos para a convivência se recolocam. Significa rever e renovar esse contrato não escrito e simbolicamente atuante.

A grande diferença dos casais que dão certo e os que não dão certo não é a presença ou ausência de problemas, mas sua capacidade de enfrentar e resolver as dificuldades que surgem no curso da vida a dois. É óbvio que a sorte tem um papel importante. O acúmulo de situações estressantes pode colocar em perigo até o casamento mais “funcional”.

O processo de resolução de problemas pode ser considerado uma progressão que vai da identificação partilhada de um problema até sua resolução. Os casais podem paralisar-se em um ponto qualquer desse caminho. Aqueles seriamente perturbados costumam ter dificuldade no reconhecimento partilhado de um problema. A pouca clareza na comunicação e um baixo nível de diferenciação[5] bloqueiam a definição do problema e o reconhecimento das diferenças nos sentimentos e nas idéias em torno de um tema que diz respeito à relação.

Alguns casais têm dificuldades em exprimir as diferenças por um medo enorme de que o conflito aumente e ocasione violência ou ruptura do casamento. Os casais com menor tolerância ao conflito tendem a “concordar em estar de acordo” e urgem por um prematuro encerramento dos problemas. Usam sempre a mesma técnica ou a mesma solução para todos os problemas, considerando a experimentação como fonte de fracasso ou de culpa. Essas estratégias, em conseqüência, só fazem aumentar a possibilidade de que os problemas não sejam enfrentados de modo eficaz, com conseqüências para o relacionamento.

Mesmo as brigas sobre o controle da relação impedem a resolução dos problemas. Uma vez que vêm à tona as diferenças, os cônjuges podem cair na armadilha do “quem tem razão e quem não tem” sem qualquer capacidade de considerar o ponto de vista do outro. Acordo e adaptação são vistos em termos de vitória ou de rendição ou controle sobre o outro. Os parceiros, então, tornam-se inimigos em uma batalha sem fim em que cada “vitória” de um deve ser sabotada ou vingada pelo outro.

Em outros casais, há a possibilidade de chegar, sem tantos percalços, da identificação do problema à sua resolução. Esses casais estão em condições de manter um sentimento de confiança, de enfrentar os problemas com tolerância no que diz respeito às diferenças e incertezas e, portanto, de construir ao longo do tempo um sentimento de reciprocidade no ajustamento de um ao outro. Eles estão em condições de experimentar soluções novas, expandir as possibilidades de resposta e também de mudar de direção quando necessário.

Desentendimentos podem ter soluções e não se cronificar. Quando insolúveis, a relação se desfaz, desde que, não mais encontre justificativa.

Integração de Entendimentos

Não há nenhuma verdade a ser dita…

As explicações psicológicas são essenciais para a cultura ocidental por serem características constitutivas de diversos padrões de relacionamento vigentes. Falar sobre “meus pensamentos, sentimentos, intenções e desejos”, por exemplo, é uma condição para participação em inúmeras formas de relacionamento.

Uma visão clara do funcionamento sistêmico pode ser extremamente útil na compreensão referente às influências do meio, na história pregressa e na história atual do indivíduo ou casal.

Como terapeutas, nosso objetivo é, sempre, o bem estar daqueles que buscam pela ajuda. Para tanto, faz-se necessário compreender expectativas, temores, recursos e limites.

Se não podemos situar-nos fora das práticas dominantes na nossa cultura, temos, no mínimo, um compromisso ético de assumirmos a responsabilidade pelo nosso trabalho, procurando desconstruir nossas práticas enquanto verdades, situando-as dentro de nossa experiência, com os vieses de nossas próprias lentes.

Especificando o contexto a partir do qual estamos considerando a terapia e as lentes pelas quais construímos nossa compreensão de uma teoria clínica e sua prática, podemos ressaltar; a crença de que todo conhecimento, teórico ou prático, é histórico, social e culturalmente produzido.

Assim priorizamos a Epistemologia Construtivista e Construcionista Social, onde o indivíduo cria sua realidade dentro de um contexto de relações sociais constituído na linguagem.

Acreditamos que as narrativas não são sobre a vida, mas a própria vida. A metáfora narrativa estabelece que as pessoas vivem e estruturam suas vidas por meio de histórias, cujos efeitos podem ampliar ou restringir suas possibilidades existenciais.

A noção de que os significados são construídos na linguagem, trazem também a noção de que discursos têm uma capacidade prescritiva sobre a vida das pessoas, na medida em que definem um conjunto de histórias ou afirmações sobre o mundo, organizando e regulando as relações interpessoais.

Desta forma, damos ênfase ao diálogo e à conversação como práticas sociais transformadoras, geradoras de significado e legitimadoras de sujeitos em relação.

Conhecer as lentes teóricas que informam nosso olhar, escuta e compreensão em relação aos nossos clientes serve como contexto para exercício de coerência e criatividade.

Bateson e, posteriormente, a Cibernética de Segunda Ordem e o Construtivismo abordaram a definição do terapeuta baseada na auto-referência: Tudo o que é conhecido traz, inevitavelmente, a marca das lentes do sujeito que conhece.

No contexto de terapia, toda escuta pode ser entendida como decorrente do sistema de significados do qual faz parte a formação teórica e prática do terapeuta, assim como sua bagagem transportada de suas histórias.

Mony Elkaïm (1990), partindo da auto-referência, define o conceito de ressonâncias como uma intersecção entre os participantes do sistema na sua construção mútua, oferecendo um caminho para lidar com o encontro entre essas histórias dos clientes e as histórias pessoais do terapeuta. Segundo ele, a definição dessas ressonâncias, dessas “vibrações”, transforma-se em uma porta de acesso ao sistema, portanto, aliada do terapeuta.

O terapeuta, além de acolher e reconhecer a legitimidade da voz de seus clientes, responde genuinamente, a partir do impacto das histórias dos clientes sobre ele, refletindo, enfatizando e compartilhando sua experiência de estar ali, junto com ele. A participação ativa do terapeuta pode contribuir para clarear os relatos, construir um sentido, compreender os significados do que foi vivido, organizar, dar coerência e sentido para as histórias vivenciadas.

Cliente e terapeuta compartilham sua especialidade e responsabilidade pela terapia numa parceria conversacional. O cliente é o especialista no que se refere ao conteúdo (ele é quem sabe das suas experiências de vida e de suas razões) e o terapeuta é o especialista no processo (criando um contexto dialógico e engajando-se em uma conversação na primeira pessoa) formando assim um sistema de mútua influência.

A principal característica da escuta do terapeuta é ser desconstrutiva à medida que favorece a abertura para a construção de novas narrativas; e de sua conduta é orientar-se para a criação de contextos propícios para a reconstrução do significado.

Parafraseando Maturana e Varela (1995), se aceitamos que a realidade terapêutica que cada um de nós vê não é a realidade, mas uma realidade que construímos com nossos clientes, só podemos orientar-nos por uma atitude de respeito, abertura e aceitação das diferenças. Tal escuta aberta, valida a autenticidade de cada uma e todas as versões narrativas das pessoas em conversação.

O Processo de Questionamento

Um Recurso a Serviço da Reconstrução do Significado

“…o que ouvimos e vivemos junto com nossos clientes nos transforma como pessoas que somos e,

sem dúvida,

não é essa uma via de uma só mão…”

(Grandesso 2000)

Muito se tem escrito sobre o questionamento circular desde que o Grupo de Milão propôs-se a desenvolver um método de questionamento que pudesse resultar em hipóteses sistêmicas, em busca dos enlaces circulares dos padrões que conectavam pessoas, acontecimentos, contextos, idéias, crenças e ações.

A Técnica de Questionamento Circular é usada para redefinir e descartar hipóteses acerca da família, ajudando a construir um contexto de curiosidade e neutralidade.

Quando se pergunta a um participante da sessão sobre a perspectiva de outro, estamos favorecendo a validação de descrições alternativas, uma vez que convidam mais a uma escuta interessada do que à disputa por versões factuais das histórias.

A possibilidade de mudança terapêutica seria decorrência do próprio método de questionamento circular – como um efeito inerente ao processo de questionamento. Para Karl Tomm (1988), as perguntas reflexivas funcionavam como espécies de mini-intervenções, gerando mudanças produtivas na família ou em um cliente individual.

Apoiando-se na teoria da comunicação de Pearce e Cronen para situar teoricamente tal questionamento, Tomm propôs que o efeito terapêutico das perguntas reflexivas decorria de uma espécie de “loop inesperado”, que, perturbando a organização significativa da experiência das pessoas, disparava uma atividade reflexiva capaz de alterar o sistema de crenças da pessoa. Um aspecto importante ressaltado por ele foi que, embora disparando a mudança, tais perguntas não poderiam responder pela direção que ela assumiria. Esta decorreria da organização autopoiética[6] dos próprios sistemas humanos no exercício de sua autonomia.

As perguntas respondem a diferentes intenções do terapeuta, bem como suscitam, potencialmente, diferentes níveis de respostas dos clientes. Tais perguntas favorecem ao cliente apropriar-se, reflexivamente, de outras partes de sua experiência, e a construção de novas narrativas que possam contradizer as versões problemáticas dominantes.

Essa maneira de questionar convida o terapeuta a deixar conduzir-se pelos seus clientes para seus universos particulares, apoiado em uma posição de não-saber. As perguntas são conduzidas mais no sentido de reconhecer uma abertura, uma fissura ou lacuna no discurso do cliente, de modo que favoreça a reversão entre figura e fundo no campo da sua experiência de sentido.

Permitir a cada membro do sistema terapêutico que tome emprestados os lugares de cada um dos outros para olhar as experiências vividas pelo referencial deles, permite desafiar a lógica dominante nas narrativas dos nossos clientes, abrindo espaço para novas histórias.

As narrativas que as pessoas trazem quando buscam terapia são, geralmente, estruturadas em uma lógica linear povoada por histórias de vítimas e vilões, culpados e responsáveis pelos problemas e, portanto, depositários das expectativas de soluções.

Perguntas circulares, ao permitirem organizar uma lógica sistêmica, acabam favorecendo a abertura de espaço para a construção de novas histórias. Questões reflexivas não são influenciadoras ou confrontadoras, elas vêm desafiar as narrativas dominantes, trazendo o novo e o inesperado, não só para o cliente, mas também para o terapeuta.

Boas perguntas abrem e mantêm abertas as possibilidades de sentido (e aí está a sua magia), levando a novas perguntas, e, quando construímos novas histórias sobre nós mesmos, já não somos mais os mesmos.

Perguntar aos clientes, em uma respeitosa atitude oriunda do lugar de nossa ignorância e dos ecos dos discursos dos clientes que ressoam para o terapeuta, se constitui em um meio de tornar a terapia uma prática social decorrente da ação conjunta entre os participantes.

A grande diferença entre perguntar e perguntar dentro do contexto da terapia está no fato de que na terapia (organizadora da conversação), as perguntas tendem a gerar experiência, não sendo voltadas para obter informações. Experiência, nesse sentido, diz mais respeito aos recortes feitos por meio da atribuição de significados, do que um resgate dos episódios vividos e armazenados. Desse contexto é que decorre a possibilidade de re-autoria da existência.

Aumentar Padrões que Conectam

(Constituindo um novo campo de sentido)

“Somente quando o inesperado, o não-usual e o exótico se apresentam como uma quebra de sentido, quebra de transparência, configuram-se as condições de possibilidade para que algo de novo possa surgir de nossa surpresa, nossa estranheza, como uma nova busca pelo familiar e pela conformidade, ou seja, um novo sentido”.

(Grandesso, 2000)

Se só podemos começar a construir um sentido a partir de nós mesmos, é fundamental colocarmo-nos em uma atitude aberta para a escuta da outra pessoa, e deixarmo-nos envolver, surpreender e modificar pelo que ouvimos.

Em terapia, os casais podem ser auxiliados a considerar como suas idéias e premissas orientam os seus modelos interativos em uma determinada direção, freqüentemente de maneira tácita, e a tornar mais explícitas as regras que cada um deseja.

A terapia não é suficiente se resolve simplesmente o conflito sem considerar o quanto as regras da relação podem reforçar modelos interativos disfuncionais. Os casais precisam ser ajudados a construir novas capacidades interativas.

Um recontrato da relação com base em preferências, competências e recursos de cada parceiro, pode requerer mesmo o desenvolvimento de competências completamente novas.

Através da experiência da terapia, o centro de gravidade de vida de uma pessoa, por muito tempo deslocado para a relação conjugal e as “faltas” do outro, retorna para a vida pessoal de cada um, freqüentemente permitindo atingir um grau mais elevado de consciência de si próprio.

O casamento pode tornar-se um processo de mudança e de crescimento se deixarmo-nos desafiar em nossas pré-concepções para sermos tocados e envolvidos pela alteridade de nossos parceiros de diálogo.

As pessoas estão sempre ligadas de alguma maneira, tanto às ações antecedentes como às futuras ações possíveis. Cada ato de fala cria possibilidades para atos de fala seguintes, estando acima de qualquer possibilidade de previsão ou de fechamento.

Dialogar não pressupõe que os participantes concordem. Esta é uma das maiores riquezas do diálogo – poder conviver com as convergências, mas também com a diversidade de idéias, opiniões e sentimentos, em uma atitude de respeito pela singularidade. A aceitação da legitimidade do outro.

No diálogo, pode-se adotar múltiplas perspectivas e, deixar-se, dessa forma, de ser cativo das histórias totalizadoras e limitantes. A grande mudança é a compreensão que significados dependem de contextos, resultando daí uma postura de maior flexibilidade diante da vida e das relações, assim como da capacidade de estar em diálogo, o que possibilita o exercício de sua condição de autoria da existência.

O espaço dialógico compreende tanto as conversações externas entre os participantes, como as conversações internas dentro de cada um.

Clientes e terapeutas se envolvem em uma parceria genuína na exploração (construção narrativa) do problema que aflige os clientes, bem como no desenvolvimento de possibilidades alternativas.

Quando se participa de uma conversação, assume-se diferentes posições, a partir de pré-concepções que inevitavelmente se traz para o contexto dialógico. Nenhuma é melhor ou mais verdadeira, já que cada posição nasce da genuinidade da experiência de cada um.

Embora a atuação do terapeuta não seja dirigida para metas específicas a serem alcançadas, o que não seria possível dentro do enfoque dialógico, sua ação é intencionada, envolvendo um uso deliberado da linguagem, contextualizada por conversações dialógicas e organizadas em torno de problemas existenciais. O uso de técnicas serve para criar contextos propícios para mudanças, e não para intervir na direção de propósitos predeterminados. As técnicas, como recursos para exploração criadora dos terapeutas, são úteis enquanto mantém seu entusiasmo e curiosidade. Rapizo (1996) define a função das técnicas como construção e não instrução. Mesmo que sejam os terapeutas os que propõem as técnicas, são os clientes que as validam como bons recursos ou não.

A intenção subjacente às intervenções do terapeuta se dirige para a desconstrução de significados restritivos, crenças e suposições tidas como certas e verdadeiras, de modo que favoreça a reapropriação dos acontecimentos vividos ou a criação de novas possibilidades mais esperançosas e recursivas.

Psicoterapia é produção, se ela tiver êxito, os clientes deverão terminar em um lugar diferente de onde começaram.

Conclusão

A força da cultura é superior à força dos individuos que a compõe. A sociedade diferencia os gêneros. Prescreve-lhes diferentes papéis e valores. Essa identidade é profundamente gravada, determinando a forma de vida que este indivíduo deverá ter, de acordo com as convenções particulares de seus grupos sociais. Então quando homem e mulher se encontram, exige-se um grande esforço de comunicação entre os dois.

Conclusão

CULTURA

Arnaldo Antunes

O girino é o peixinho do sapo

O silêncio é o começo do papo

O bigode é a antena do gato

O cavalo é o pasto do carrapato

O cabrito é o cordeiro da cabra

O pescoço é a barriga da cobra

O leitão é um porquinho mais novo

A galinha é um pouquinho do ovo

O desejo é o começo do corpo

Engordar é a tarefa do porco

A cegonha é a girafa do ganso

O cachorro é um lobo mais manso

O escuro é a metade da zebra

As raízes são as veias da seiva

O camelo é um cavalo sem sede

Tartaruga por dentro é parede

O potrinho é o bezerro da égua

A batalha é o começo da trégua

Papagaio é um dragão miniatura

Bactérias num meio é cultura

Bibliografia

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A força da cultura é superior à força dos indivíduos que a compõe. A sociedade diferencia os gêneros. Prescreve-lhes diferentes papeís e valores. Essa identidade é profundamente gravada, determinando a forma de vida que este indivíduo deverá ter, de acordo com as convenções particulares de seus grupos sociais.

[1] Segundo Checchin (1989), causalidade circular é o oposto a relações lineares de causa e efeito

[2] Linguagem se refere ao uso da palavra articulada ou escrita como meio de expressão e de comunicação entre pessoas. (Dicionário Aurélio, 1986)

[3] Comunicação, segundo o mesmo dicionário fala da capacidade de trocar ou discutir idéias, de dialogar, de conversar, com vista ao bom entendimento entre as pessoas. (Dicionário Aurélio, 1986)

[4] Cibernética: A ciência que examina os controles dentro dos sistemas.

[5] Todas as pessoas que vivem juntas têm diferenças que, ao longo do tempo, confundem-se. O terapeuta pode ajudar o casal a resolver algumas e a reconhecer e a respeitar outras de modo que os parceiros possam manter uma boa noção de si mesmos.

[6] Refere-se a autopoiese – mecanismo que torna os seres vivos, sistemas autônomos – aqueles sistemas que podem especificar suas próprias leis de funcionamento


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