O Pequeno Dicionário Amoroso

Pequeno Dicionário Amoroso

Articulação do filme O Pequeno Dicionário Amoroso com os conceitos de instituido e instituinte do texto À Análise Institucional do Lapassade.

O filme apresenta o desenrolar de uma relação amorosa entre duas pessoas que se apaixonam,  os seus encontros e desencontros. O casamento, nos moldes tradicionais como é dito no filme, tem estatisticamente muito pouca chance de se estabelecer de forma duradoura. No entanto, a maioria das pessoas continuam querendo casar mesmo que as estatísticas provem que depois de 5 anos (dados do filme) mais de 50% dos casais se dizem infelizes. Por que disto? Podemos dizer que a sociedade molda os sujeitos a terem determinados padrões de comportamento (instituído/Lapassade) e, tudo que foge a esses padrões (instituinte/Lapassade) é excluído/alienado do modo considerado main streem. O casamento como  instituição reprodutora de comportamentos instituídos  cumpre a sua função social, até o momento em que o rompimento com os laços institucionais se torna inevitável.

O filme serve como ponto de partida, para que se questione o casamento como parte do  instituído/ constituinte da vida das pessoas no cotidiano. No filme, o casamento é visto como estruturante, capaz de mudar os hábitos das pessoas, torná-las mais saudáveis.

O casamento, portanto, como uma etapa da vida que deve ser vivida. De outra forma, os que fogem a regra, aqueles que não se casam, são vistos com pré-conceito pela maioria dos que se casam, mesmo que as estatísticas provem que metade dos casados não são felizes e que a outra metade não esteja mais casada. Assim, o casamento exemplifica os três níveis da realidade social de que fala Lapassade como: vivência  no contato face a face (grupo), sistema de regras (organizacional) e produção e reprodução das relações no ato concreto do casar-se (instituição).

No filme podemos observar tanto o caráter instituído e instituinte da instituição casamento. Como diz Lapassade: “ o instituinte é também um movimento da instituição, é aquele que garante, em última instância, a possibilidade de mudança”. Quando no filme  é dito, não quero mais continuar na relação/casamento é feito um movimento de corte com o instituído e com as bases formadoras da instituição casamento. No entanto, como diz Lapassade; “é só apartir do instituído que se instaura o instituinte”, esse é o seu avesso. É na presença das contradições sociais que surge a possibilidade de ruptura com o instituído,  criando-se espaço para o fazer diferente. É ai que o instituinte se forma. O esforço instituinte das novas formas de relações supõe a destruição do que existe, do instituído. Espera-se, no entanto, que as novas formas instituídas não se cristalizem ou se aliene em instituições, que irão perpetuar um cilclo vicioso e não virtuoso de criação e ação, que nasce das necessidades de transformação do humano.

No filme, esse processo pode ser observado, no movimento que ambos homens e mulheres fazem para não se deixarem paralizar pelos padrões sociais impostos pela instituição casamento. No entanto, fica também claro a dificuldade de se impor padrões próprios.

O texto da Suely  Roenik fala de uma Penelope e um Ulisses que vivem uma relação simbiótica, encarnada no amor romântico do casamento. Essa relação que deve durar até que a morte nos separe, imobiliza homens e mulhers num mundo de movimentos compulsivos que tem como objetivo o eterno /absoluto. Esses movimentos compulsivos se revelam no eterno tecer da Penelope e nas aventuras sem fim de Ulisses. Esses movimentos estão vinculados as demarcações de território, onde homens e mulheres exercem suas funções diferenciadas. Para Lapassade é nesse processo que se insere o instituído. A desterritorialização é a possibilidade de romper com esse estado de coisas e inventar novas maneiras de amar. Aqui forma-se as bases para o surgimento do instituinte.

As máquinas celibatárias, no texto da Suely R., representam a  entrega total, a desterritorialização, que acontece, na medida em que, surgem encontros e desencontros de amor que são puro desejo. Para Lapassade, somente na desconstrução dos processos instituídos (desterritorialização para a Suely R.) existe uma  esperança de construção de algo instituinte e por isso sem compromisso com as velhas fórmulas.

Para Suely R. devemos nesse processo de desterritorialização cuidar para que, o outro não se torne descartável e percamos a capacidade de envolvimento que pode ser diferente da ligação anterior especular/simbiótica.

Portanto,  podemos dizer que tanto para a Suely R. como para Lapassade o encontro com a alteridade/o outro, só é possível, na medida em que, possamos suportar um espelho que não mais delineia o nosso contorno. O que sobra são figuras partidas que repesentam de tudo um pouco. Nesse sentido o momento é que vai determinar o que vemos  refletido no espelho. Aqui então o instituinte se faz a todo momento. O difícil é suportar a angústia da dúvida e correr o risco da perda, não apelando para velhos clichês/fórmulas (instituído).

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