Despertando a afetividade na família

Introdução

Escrever sobre esse caso clínico, nos remete a emoções distintas, começando pelo surgimento de nossa dupla de trabalho, durante um sorteio na aula do curso de terapia de família ITF RJ; passando pela escolha do caso, as vivências do processo, como: as dúvidas, aflições, surpresas e realizações que essa família proporcionou a nós. E, uma dessa surpresas foi a revelação da grande sintonia e sentimento de acolhimento que nutrimos uma pela outra em coterapia e em nossa vidas pessoais. Feita essas considerações, iremos agora apresentar o caso.

Descrição do Caso

Iniciou-se o atendimento à família em agosto de 2001 com supervisão da Prof. Tânia Almeida.

A família era composta de quatro pessoas: A. mãe com 43 anos, 2o. Grau incompleto; N. avó com 76 anos, T. filho 10 anos cursando a 4.a série do 1o. Grau e E. namorado com 38 anos, 1o. Grau incompleto.

A queixa trazida pela família foi a de dificuldade de relacionamento entre mãe N. e filha A, fato esse que estava afetando a qualidade de vida – prejudicando a educação de T., filho de A..

As duas chegaram ao Instituto com uma dinâmica de relação muito conflituosa, onde a filha mantinha uma fala de culpabilizar a mãe por todas as suas dificuldades, agridindo-a verbalmente a todo momento. A. nutria sentimentos de abandono é ciúmes da mãe em relação ao companheiro E.

A. tomava conta da sessão quase que inteira, enquanto sua mãe si colocava passiva as acusações da filha, não respondendo as agressões verbais dessa. Justifica a sua postura por um sentimento de impotencia, já que diz que tudo o que ela faz para agradar afilha é interpretado por A. com o objetivo de prejudicá-la. A. até esse momento não tinha muita capacidade de ouvir as intervenções das terapeutas.

A. tinha um discusso confuso repetitivo e com predomínio de idéias persecutórias e também de cunho sexual.

Desde o ínicio do atendimento, percebemos uma relação forte entre mãe e filha, porém estavam ligadas pelas mágoas, desconfiança e culpas do passado. Enfim, estavam utilizando-se do afeto como fonte geradora de sofrimento.

Observamos que A. ouve melho seu companheiro, podendo o dialágo na sessão ficar mais equilibrado.

T. demonstrou sensibilidade, quando participou da sessão, ficando no papel de apaziguador das brigas entre mãe e filha, demonstrando ser um ponto de equilibrio da família.

No decorrer do processo, pusemo-nos a desenvolver o genograma da família com o objetivo de conhecer um pouco mais da estória familiar e oferecer um espaço criativo de construção de diferentes versões de suas prórias estórias de vida.

A medida que o genograma ia sendo construído percebemos que Dona N. pode ter mais voz na sessão, autorizando-se a recontar a sua própria estória e A. permitindo-se aprender com sua mãe.

Nos relatos observamos que a relação dos seus pais era baseada em brigas, traições e idas e vindas do marido para casa. “Dona N.”, como assim a chamamos, estava sempre a frente da resolução dos problemas, geralmente resolvendo-os sozinha. Os filhos A.P. viviam sobre a sua orientação. A. sentia-se pouco amada pela mãe e ao mesmo tempo muito controlada por ela, já que não podia sair de casa e  estar com meninos.

Nesse momento da terapia A. andava extremamente agressiva com a mãe e T. presenciava sucessivas brigas entre as duas.

Ao  final das oito sessões acordadas no ITF – RJ. ,resolvemos juntamente com a nossa equipe escrever uma carta para T., já que esse foi o agente motivador da mudança dessa família.

Ao escrever a carta tinhamos como objetivo descrever como estavamos entendendo a dinâmica de sua família. Precebiamos que existia muito afeto, no entanto esse estava sendo mal utilizado, alimentando mágoas e resentimentos do passado. T. era o ponto de união entre A. e N. e por onde o afeto podia ser expressado como carinho, cuidados e atenção.

Prescrevemos certas condições para que o atendimento pudesse continuar fora da instituição, como por exemplo: A. retornar ao psiquiatra e rever sua medicação, mantendo sua terapia individual . Assim foi feita a passagem para o consultório.

No consultório, A. ficou mais agressiva, chegando a gritar e até dar um empurrão na mãe na sessão. Colocamos limites firmes a respeito de agressões físicas e morais, já que não permitiriamos esse tipo de conduta, as custas de interrompermos a sessão no momento da agressão.

O que fazer diante dessa situação? Paralizar frente ao sentimento de impotência ou caminhar no sentido da potência das possibilidades e das transformações ? Optamos por trilhar caminhos possíveis e inusitados, levando os membros dessa família a construirem novas formas de estarem juntos.

Recurssos Terapêuticos

Passaremos a descrever os recursos terapêuticos que nos foi útil para avançarmos,junto com a família, na direção de uma interação mais confortável.

A visão sistêmica de mundo:

  • Prioriza os aspectos relacionais e interpessoais do sofrimento humano, preocupando-se mais com o contexto do que com o texto.
  • Amplia-se as possibilidades de redefinição do problema-sintoma.
  • Considera a família como um sistema aberto em constante interação com o meio, organizado de maneira estável, não rígida, contendo uma história e tecendo um conjunto de códigos ( normas de convivência, regras ou acordos relacionais, crenças ou mitos familiares) que lhe dão singularidade.

A Ótica Construtivista e Construcionista Social

  • A terapia dá atenção privilegiada ao contexto socio-cultural e interativo que permite uma dança de definições para criação de significados novos.
  • Objetividade entre parentêses quer dizer que não existe uma descrição puramente objetiva da realidade, dependendo dos pontos de referência do observador e não apenas um atributo do observado.
  • Ambas abordagens levam o sujeito da reflexão para a ação.

A Coterapia,  devido a complexidade do caso, nos ajudou a atravessar as dificuldades naturais que encontramos com essa família, vindo a ser uma nova forma de aprendizado de estar em relação com o outro.

No nosso trabalho de dupla, experimentamos a coterapia como recurso potente entendido como uma paceria, onde pudemos compartilhar, dividir e discutir o trabalho no aqui e agora ( na própria sessão).

Nessa prática, abrimos caminhos para a expressão das diferentes visões das profissionais, acrescentando flexibilidade aos dialágos entre os familiares, quebrando exteriotipias e permitindo a coexistência de várias possibilidades de compreensão e solução para uma mesma realidade.

Dessa forma encontramos o tom adequado para trabalharmos com essa família. Encontramos os nossos tons, o da nossa linguagem, da nossa arte.

O Genograma recurso terapêutico citado a cima no relato do caso possibilitou uma conversação entre os membros da família legitimando e valorizando as várias vozes.

Recursos Co-construídos na Terapia:

Criamos um Contrato de Convivência onde estabeleciamos regras e acordos relacionais de maneira que a convivência se tornasse mais respeitosa e confortável para todos. A partir desse recurso podemos afirmar, como terapeutas, que ocorreu uma mudança  de paradigma, passando a família a compartilhar significados co-construídos.

Recurso da Caneta foi um instrumento facilitador da conversação onde só a pessoa que estava com a caneta poderia falar. Ofereceu uma melhoria na comunicação.

Confecção de Listas com pensamentos persecutórios e outra com pensamentos positivos. Sugerimos que a lista com os pensamentos persecutórios fosse rasgada e jogada no lixo na sessão e assim foi feito. Observamos que a partir desse ato concreto A. pode afastar essas idéias de sua mente.

Recursos das Palavras para finalizar a sessão com o objetivo de integrar o que tinha sido falado na sessão com o sentimento despertado naquele momento. Essa estratégia era realizada em roda com os integrantes do sistema terapêutico de mãoes dadas e logo após as palavras serem ditas davamos um grande abraço coletivo. As palavras usadas tinham sempre conotação positiva, como: esperança, confiança, união, paz, respeito, amor e despertar. Parafraseando o Goolishian: “We can not leave a negative field we must commit ourselves to use positive language”. ( citação retirada de um trecho do vídeo apresentado no ITF – RJ, de um trabalho de consultoria do mesmo )

Compartilhando Reflexões sobre a Dança da Família

A partir das intervenções utilizadadas pudemos perceber que a relação mãe e filha começava a mudar. Ambas passaram a ocupar lugares diferentes na sessão. A. mais tranquila, deixando a mãe expor livremente as suas idéias, melhorando a comunicação entre elas na sessão. Nesse momento houve um desejo de compartilharem conosco cartas, cartões e bilhetes carinhosos que haviam escrito no passado de uma para a outra. Gerando boas conversas que proporcionaram novas narrativas e possibilidade de encontro, despertando assim sentimentos de afeto, cuidados, e proteção. Esse fato acontece concomitantemente com a troca de terapeuta de A. e aceitação do uso da medicação proposta pelo psiquiatra.

Nessa fase de sua vida, A. Decidiu dar outro passo significativo que foi o de morar junto com o seu antigo namorado, rapaz esse com quem brigava muito por ciúmes, mas que mantinha relação de proximidade e carinho. A. ajudou-o a largar o vício das drogas e do álcool, demosntrando uma grande força interior direcionada a saúde. E foi percebendo esse seu lado saudável que resolvemos direcionar o nosso trabalho para tal aspecto da sua personalidade. Queriamos resgatar todo o afeto que sentiamos existir em A. em relação as pessoas em geral canalizando também para a família. E estavamos conseguindo … Tudo estava se encaixando melhor, relação mãe e filha mais próxima, vínculo de maior companheirismo entre elas, namorado virando “marido”. Após todas essas mudanças, percebiamos A. entrando num processo depressivo.

A essa altura nos perguntávamos: “O que estaria acontecendo com A., já que tinha conseguido estabelecer melhor o seu relacionamento familiar?” Nos deparamos nesse momento com um paradoxo:  a melhora nos relacionamentos promoveu o aparecimento de um humor depressivo. Um outra questão que ocupava nossas indagações seria: “ Como seria para ela viver de formas mais harmoniosas sem as brigas e confusões tão presentes num passado recente?”

Esse processo depressivo se agravou deixando-a prostrada, sem disposição para fazer as atividades rotineiras e mesmo aquelas ocupações que lhe davam prazer.

N. ajudava bastante A. a superar esse momento díficil afirmando o seu amor e apoio constante. Em especial numa sessão onde A. encontrava-se fragilizada N. pode fazer essa declaração. Que sessão linda! Emoção no ar, a afetividade estava ali presente! Era um desejo nosso que esse sentimentos de parceria, cumplicidade e amizade em algum momento despertasse, como haviamos preconizado na carta endereçada ao T. no final do atendimento no ITF/RJ.

Atualmente mãe e filha estão unidas para ajuadar a T. que ao longo do tratamento assumiu um novo lugar na família. Passou do lugar de “salvador da pátria” para o lugar de criança que tem que ser cuidada, orientada e amada como tal. Essas mudanças fizeram com que ele passasse a ter comportamentos agressivos e constante agitação. Já que agora estava no papel que lhe cabia na família, o de ser criança.

Mãe e avó nesse momento procuraram ajuda médica para ele e estavam entendendo melhor a sua problemática. Acreditamos que esse momento seja muito rico para a família já que novamente em função de T. se uniram, porém cada um com a sua função.

Nós, enquanto terapeutas, pretendiamos ajudar a essa família a encontrar novos padrões de relação, legitimando e valorizando as diferentes falas para assim proporcionar uma convivência colaborativa antes dificultada pelas mágoas e  ressentimentos do passado.

Nesse sentido terapia para nós ficou no lugar de transição, processo, onde pudemos abrir uma fresta, por onde espiamos juntos – terapeutas e família – novas paisagens que foram sendo descobertas.

Bibliografia

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Grandesso, M. Sobre a Reconstrução do Significado: Uma Análise Epistemológica e Hermenêutica da Prática Clínica. Casa do Psicólogo: São Paulo, 2000.

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Mergulhão, E., Travisan, I. Coterapia – A história de uma experiência (descobertas e reformulações). Anais do III Congresso Brasileiro de Terapia Familiar.

Telfener, U.  A Psicopatologia Reconsiderada : in Togliatti, M. M.,Telfener U. (Org). Dall’individuo al sistema: manuale di psicopatologia relazionale. Torino: Bollati Booringhieri, 1991.

Zuma C.; e Meyer M. Visão de Mundo Sistêmica: Pressupostos; Contrapostos e Aplicabilidade. Intercâmbio, Rio de janeiro, 6(2): 31-44, set./dez/1989.

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