A Mulher e a Cultura do Sacrifício: uma reflexão através do conto “A pequena sereia”.



RESUMO

 

 

            Pretendo, nesse trabalho, discutir como culturalmente o sacrifício[1] ainda é considerado uma  virtude da mulher, apesar das grandes mudanças pelas quais tem passado a nossa concepção sobre a mulher e o lugar que ocupa na sociedade.  Eu desejo demonstrar ao longo desse trabalho a dicotomia entre sacrifício, auto-conhecimento e auto-realização  decorrente da descoberta do próprio desejo e da conquista do poder de  autonomia do eu.

 

O meu objetivo será então mostrar como os ideais de uma sociedade patriarcal contribuíram para produzir uma imagem ideal de mulher baseada na submissão, abnegação e perda da sua individualidade e, como o mundo pós-moderno influenciado pelo consumo imediatista tem contribuído para transformar a mulher em outro tipo de objeto, que exalta a imagem de um corpo perfeito como passaporte para a felicidade.

 

Para isso utilizarei a imagem mítica da sereia, criada por Hans Christian Andersen no conto A Pequena Sereia, como representante do ideal tradicional de sacrifício amoroso   comparando com a versão contemporânea da Disney sobre o mesmo conto a fim de avaliar suas similaridades no processo de legitimação de ideologias particulares. Estou particularmente interessada em estudar as diferentes formas de sacrifícios que ao longo dos tempos tem sido exigido da mulher, o que mudou e o que permanece contribuindo para a construção da identidade de gênero de garotas e mulheres.  

 

 

 

 

 

 

 

SUMÁRIO

 

 

 

  1. I.        Introdução                                                                                                            01

 

  1. II.      O mito da feminilidade                                                                                          03

 

  1. III.    Definição de sacrifício                                                                                          06

 

III.1 – A mulher e o sacrifício: uma construção social.                                                08

 

III.2 – A mulher e o sacrifício para Simone de Beauvoir.                                            10

 

III.3. – A mulher e o sacrifício para Virgínia Woolf.                                                     11

 

  1. IV.      O ideal tradicional de mulher e o amor romântico.                                             13

 

  1. V.        A mulher contemporânea e a cultura de consumo.                                            16

 

V.1 – A mulher contemporânea e o culto do corpo.                                                    20

 

  1. VI.         Uma análise do conto de fada A Pequena Sereia escrito por Hans

        Christian Andersen.                                                                                            22

 

  1. VII.       Comparando o conto original A Pequena Sereia com a versão da Disney.      27

 

  1. VIII.     Conclusão                                                                                                          30

 

IX .    Anexo 1 – O Conto de Andersen A Pequena Sereia  em versão resumida      32 

 

 X.     Anexo 2 – O Conto da Disney A Pequena Sereia em versão resumida          35 

 

XI .     Referências Bibliográficas           

 

[1] Sacríficio que envolve tipicamente a supressão dos desejos e auto-conhecimento em prol de uma imagem de mulher exaltada como um ser abnegado que coloca o seu  bem-estar secundário ao bem-estar de  outros significativos na sua vida.

 

 

“A very queer, composite being thus emerges. Imaginetively she is of the highest importance; pratically she is completely insignificant. She prevades poetry from cover to cover; she is all but absent from history. She dominates the lives of kings and conquerors in fiction; in fact she was the slave of any boy whose parents forced a ring upon her finger.”

 

Virginia Woolf, A Room of One’s Own

 

 

I.  INTRODUÇÃO:

 

 

A idéia desse trabalho surgiu a partir de minhas observações quando conversava com colegas em sala. Estou separada das minhas jovens colegas por quase duas gerações se considerarmos o espaço de dez anos como o tempo necessário para se passar de uma geração a outra, portanto, tal foi o meu espanto em constatar nessa conversas o quanto em comum existia entre as aspirações e anseios da minha época para hoje, em relação à questão da dependência do outro nas expectativas quanto ao casamento, a família e até  a carreira profissional.

 

Notava o quanto ainda está  presente no discurso da maioria a prioridade dada as relações amorosas e a constituir família, em lugar de uma preocupação para com a formação do indivíduo, que é a  construção de uma carreira profissional estável.

 

Na minha concepção e experiência pessoal o investimento profissional  promove não só uma independência financeira mas  contribui também para um auto-conhecimento. Um maior entendimento do que somos ajuda a definirmos melhor o que queremos e permite o desenvolvimento de um olhar diferenciado para o sentido da vida e das relações, vindo a influenciar positivamente para uma escolha mas consciente em outras esferas da vida como, por exemplo, a escolha do parceiro.

 

O ideal tradicional de mulher do começo do século passado era aquela que não se reivindicava como sujeito, a sua finalidade  encontrava-se no homem, sacrificando a sua liberdade autônoma.  Para Virginia Woolf isso resultava na abdicação de um quarto para si e renda própria. A renda própria era para ela uma carta de alforia, representação especial do viver para si.

 

A preocupação da mulher pós-moderna com a imagem de um corpo ideal é uma outra forma de sacrifício  que aprisiona a mulher na sua exterioridade. O princípio feminino do mundo moderno está baseado em um ideal de beleza que promete a felicidade plena.

 

Esse ideal de beleza, no entanto, é definido por homens detentores dos padrões e dos códigos dominantes da sociedade de consumo pós-moderna. O culto ao corpo cria demandas que podem ser constatadas na proliferação das academias de ginásticas e clínicas de cirurgias plásticas e suas enumeras técnicas voltadas para a estética reparadora como lipoescultura, seios siliconados, lábios com colágeno, butox etc.

 

Foi a partir dessas observações que passei a ficar curiosa sobre o que é ser mulher como essa construção subjetiva se dar ao longo dos tempos e  se concretiza nas práticas sociais e nas trocas entre os sujeitos e, como a cultura de consumo ocidental pós-moderna tem contribuído para formar a imagem da mulher atual. 

 

Utilizarei a imagem mítica da sereia nas versões de Andersen e Disney na tentativa de avaliar até que ponto a subjetividade da mulher continua subordinada as narrativas masculinas com papéis de gênero estritamente definidos.

 

 

 

 

II.   O MITO DA FEMINILIDADE

 

 

Simone de Beauvoir no primeiro volume do seu livro intitulado o Segundo Sexo, argumenta o fato de “todo ser humano do sexo feminino não ser necessariamente mulher”, isto é, para ela não se nasce mulher, torna-se mulher. Ela afirma que:

 

 “Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino”. Beauvoir,  (1949, volI: 13) 

 

Como ponto de sustentação desse argumento Beauvoir, (1949) aponta para o fato  das ciências biológicas e sociais não acreditarem mais na existência de entidades imutáveis, que definiriam determinados caracteres como os da mulher. Portanto, segundo ela, não existe uma essência de mulher que seria inata e igualmente presente em todos os seres do sexo feminino, o caráter feminino provém de uma reação a uma situação ambiental.

 

Assim, a condição feminina é fruto de uma realidade culturalmente produzida.  Somente  a mediação de outrem dentro da cultura pode constituir um indivíduo como homem ou mulher.

 

 

 

 

 

 

 

           

Recusar as noções de “eterno feminino” não é negar que haja mulheres.  Declarar-se mulher é significativo de uma subjetividade como parte inicial de uma definição.

 

“Se quero definir-me, sou obrigada inicialmente a declarar: sou mulher. Essa  verdade constitui o fundo sobre o qual se erguerá qualquer outra afirmação”

 Beauvoir, (1949, vol I: 9)

 

            O masculino, no entanto, é um tipo humano universal e por isso não necessita de apresentação. Ser homem é natural, não é uma singularidade como é ser mulher.

 

O homem define a mulher não em si mas relativamente a ele. O homem é sujeito, o Absoluto, a mulher é o Outro. Essa relação é muito bem simbolizada na história do Gênese em que Eva aprece como extraída de uma costela de Adão. O homem se afirma como essencial e faz do outro, aqui da mulher o inessencial, o objeto.

 

A subordinação da mulher ao homem sempre fez parte da história cuja a complexidade não pode ser comparável a outros acontecimento histórico de subordinação do mais fraco ao mais forte como foi com os negros, judeus, operários.  A condição de subordinação em que se encontra a mulher faz com que permaneça mais estreitamente ligada aos homens do que as outras mulheres, dificultando o surgimentos de um sentimento de grupo em prol de sua emancipação. 

 

A recusa de permanecer nesse lugar de Outro submisso implica recusar a cumplicidade com o homem e com isso todas as vantagens que a aliança com a casta superior pode conferir-lhe. A liberdade, no entanto, envolve uma lutar que traz com ela a angústia e a tensão pela construção de uma existência autenticamente assumida. Negar essa liberdade, no entanto, é constituir-se em coisa. É um caminho que leva a alienação e a passividade.

 

O indivíduo submisso, não conhece o seu desejo porque está preso a vontades estranhas, e frustrado no seu valor. Assim a mulher que não se reivindica como sujeito é porque se  satisfaz no papel de Outro.

  

Os homens buscavam nas lendas de Eva e Pandora, na filosofia, na teologia, na religião, na biologia e na psicologia demonstrar que a condição subordinada da mulher era desejada no céu e proveitosa à terra.

 

No século XVI afim de manter a mulher casada sob tutela, apela-se para a autoridade de Santo Agostinho, declarando que “a mulher é um animal que não é nem firme nem estável”. Beauvoir, (1949, vol I: 16)

 

É somente no século XVIII que homens democratas como Stuart Mill, entre outros, encaram a questão da mulher com objetividade, esforçando-se por demonstrar que a mulher é, como o homem um ser humano.

 

No século XIX com a revolução industrial e a participação da mulher no trabalho produtor, acirram-se as discussões e disputas de posições sobre os direitos da mulher. Na burguesia, a emancipação da mulher é considerada como uma ameaça  aos valores moral virgentes que vê na solidez da família a garantia a propriedade privada.  Na classe operária as mulheres eram vistas como concorrentes desleais, pois sujeitavam-se a trabalhar por salários mais baixos. Beauvoir,  (1949)

 

Hoje às mulheres ainda se encontram em situação de inferioridade em relação aos homens. No entanto, esses estado de coisas, segundo, Beauvoir  deve ser analisado no sentido dinâmico hegeliano, isto é, “ser é ter-se tornado” o que significa que esse  lugar hoje ocupado pela mulher  está sujeito a transformações ao longo do tempo.

 

 

 

 

Assim, a mulher vive em constante conflito, entre as necessidades de um sujeito que se coloca no mundo como um ser essencial e as exigências de uma situação que a constitui como inessencial. Como evadir-se desse destino, desse mito da feminilidade, que ainda hoje lhe é imposto por uma casta dominadora que quer mantê-la submetida, e que se expande em elogios às virtudes de resignada constituí o seu dilema.  A letra da  música “Amélia é que era mulher de verdade… Amélia não tinha nenhuma vaidade”, é uma apologia das virtudes de resignação da  mulher, sendo essas virtudes o que a qualifica como uma mulher de “verdade”. Cabe aqui perguntar de “verdade” para quem?

 

 

  1. III.                DEFINIÇÃO DE SACRIFÍCIO      

 

 

Segundo o dicionário Aurélio (1986), sacrifício é; “ ato ou efeito de sacrificar-se. Oferta pessoal ou coletiva à divindade, simbolizada na destruição de um bem ou na imolação de uma vítima. Privação de coisa apreciada. Renúncia em favor de outrem. Abnegação, renúncia, desprendimento.”

 

Originalmente segundo Golden, (1997) sacrifício não estava relacionado com sofrimento. Rituais de sacrifício eram formas de veneração do divino. O sentido de sacrifício estava em criar uma ligação entre o homem e o divino. O  sacrifício tinha o poder benéfico de fortalecer não somente os indivíduos mas toda a comunidade. No entanto esse sentido mais amplo e coletivo foi aos poucos dentro da cultura dando lugar a um outro tipo de sacrifício mais pessoal e menos transcendental. Nesse sentido, houve uma mudança na percepção do significado que hoje damos  ao ato do sacrifício.

 

Podemos dizer que essa mudança na percepção do significado que hoje damos  ao ato do sacrifício satisfaz plenamente a situação em que muitas vezes as mulheres se deparam nas suas vidas cotidianas.

 

Abnegação, renúncia e desprendimento fazem parte desde muito cedo do vocabulário de virtudes que habitam o imaginário das meninas. Os contos de fadas são prova disso, pois, estão povoados  de personagens femininos que personificam esses aspectos atuando nas estórias de acordo com esses traços de comportamento. O feminino aqui confunde-se com passividade, alienação e privação. Nesse sentido a imagem mítica da Pequena Sereia pode ser identificada como o sacrifício máximo de abnegação pois renuncia à própria vida, o viver para si, para salvar a vida do príncipe.

 

O sacrifício ocupa uma grande parte da vida das mulheres. O sacrifício da mulher envolve tipicamente a supressão dos seus desejos colocando o seu  bem-estar secundário ao de outros, isso limita o seu raio de ação e nesse processo a mulher se sente diminuída no seu valor e consequentemente na sua auto-estima. Esse tipo de sacrifício tem sido orquestrado através dos tempos por anos de tradição que tem moldado a imagem da mulher como um ser voltado para a  compaixão e renúncia.

 

Na atualidade, a sociedade pós-moderna de consumo, onde tudo é imagem, vem  exigindo da mulheres um outro tipo de sacrifício, a transformação do corpo em um objeto de consumo vendendo uma imagem  ideal de beleza que deve ser perseguida a todo custo, mas raramente alcançada. Esse culto ao corpo muitas vezes produz  conseqüências desastrosas, senão trágicas podendo  levar  a morte. Como sereias, continuamos procurando satisfazer a um ideal de mulher  socialmente definido por um Outro, continuamos sendo submetidas a vontades alheia a nossa.

 

O  sacrifício é o que se espera da mulher como mãe, nas relações amorosas, na vida profissional, na relação com os ideais de beleza impostos pela sociedade de consumo pós-moderna. Esse é um  tipo de sacrifício que confina e diminui  o sentimento de self da mulher.

 

 

 

III.1 – A MULHER E O SACRIFÍCIO: UMA CONSTRUÇÃO SOCIAL

 

 

Segundo Golden (1997) a imagem do Cristo crucificado é para a cultura ocidental a representação do auto-sacrifício. Dor, sofrimento e privação é então associado a idéia de virtude como nobreza de caráter e força espiritual. Para o cristianismo Deus só é encontrado  através do sofrimento.

 

Para alguns estudiosos a ênfase no auto-sacrifício justifica-se como uma contra partida às tendências, observadas no caráter dos homens ocidentais, a uma desmedida auto-afirmação e orgulho que levava a uma onipotência afastando-os de Deus e dos outros seres da criação.

 

A idéia de auto-sacrifício, no entanto, nunca se apresentou como um ideal apropriado para as mulheres que  apresentam como falta uma inabilidade de serem assertivas, a não ser para defender os interesses de uma segunda pessoa.

 

            O valor do sacrifício afeta homens e mulheres diferentemente, apesar de ambos os sexos serem igualmente inclinados a procurar a virtude do sacrifício como uma forma de elevação espiritual. No entanto, enquanto os homens tinham como expressão do sacrifício se desfazer das riquezas materiais, as mulheres eram mais propensas a mortificar o corpo recusando alimentos, privando-se do sono num processo de auto-fragelamento. (Golden 1997)

 

O crescimento econômico que iniciou-se no século XVIII e tomou impulso nos séculos seguintes privilegiou as famílias da classe média libertando as mulheres dos trabalhos pesados fora do lar que contribuíam para a subsistência da família como também de trabalhos domésticos pesados.

 

 

Sendo assim a casa passou a ser considerada domínio da mulher e  todo o resto era domínio do homem. A mulher passou a adquirir funções simbólicas como por exemplo, guardiã da moralidade e das virtudes espirituais que os homens tiveram que ignorar para poderem funcionar efetivamente no mundo dos negócios.

 

Desde que a cultura cristã a partir do século XIX identificou virtude e moralidade como auto-sacrifício e renúncia, o sacrifício passou a ser responsabilidade da mulher e a definir o caráter feminino. 

 

Somente a partir dos anos 60 do século XX – mundo pós-moderno do capitalismo em vias de globalizar-se – é que pela primeira fez  na história ocidental foi colocada ainda sobre forma interrogativa, a questão do fim de uma estrutura multimilenar: o patriarcalismo. O patriarcalismo permeava, até então, toda a organização social, da produção ao consumo, até a política, a legislação, a cultura e nesse processo  marcou-se pela dominação e pelas diversas formas de violência contra a mulher. (Campos, 2001)

 

O outono patriarcal vem sendo considerado por alguns sociólogos, entre eles Castells (in Campos, 2001: 9) como: “a mais importante das revoluções porque remete às raízes da sociedade e ao âmago do nosso ser”. Nesse sentido, o questionamento da hegemonia dessa estrutura patriarcal na  modernidade é cercada por incertezas e ambivalência, avanços e recuo, na medida em que  articula-se às crises de identidade  de gênero masculino e feminino.

 

O patriarcalismo sofrerá uma ruptura pois a mulher recusa-se a desempenhar exclusivamente papéis tradicionais de gênero, submetendo-se ao domínio dos homens, bem como a manter-se à margem, seja na vida pública, seja dos níveis de escolaridade superior.

 

 

A mulher como símbolo do auto-sacrifício coexiste de forma contrastante com o conceito mais recente de que a mulher deve viver para si mesma.

 

 

III.2 – A MULHER E O SACRIFÍCIO PARA SIMONE DE BEAUVOIR

 

 

            Numa perspectiva da moral existencialista, Beauvoir, (1949) assume ser inerente de todo o indivíduo sentir “uma necessidade indefinida de se transcender” que se traduz na  procura de algo que possa justificar a sua existência. Para ela,  somente o exercício contínuo da  liberdade autônoma possibilita o sujeito desenvolver projetos concretos que passam a justificar a sua existência transcendendo  as limitações da realidade que  muitas vezes oprime e frustra.

 

Segundo Beauvoir o universo em seu conjunto é masculino, os homens modelaram-no, dirigiram-no e ainda hoje o dominam, a mulher é submetida a vontades alheia a sua.

 

Nesse contexto, a idéia de sacrifício vem da situação de dependência da mulher ao homem, que não reivindicando para si o lugar de sujeito singular  abre mão de expandir seu futuro em vista de outras liberdade e, da possibilidade de se conhecer como sujeito produtor e  transformador da realidade.

 

A mulher ao abdicar dessa reivindicação fundamental que forma as bases da sua liberdade autônoma arrisca-se a constituir-se em coisa. Sendo, assim o homem:  

“Pretende-se torná-la  objeto, votá-la à imanência, portanto sua transcendência será perpetuamente transcendida por outra consciência essencial e soberana.” Beauvoir (1949, vol I: 23)

 

 

O sacrifício em tais circunstâncias configura-se na renúncia da liberdade autônoma que lhe impõe a condição de ser inessencial. A mulher ao deixa-se definir por um Outro submete-se as vontades de um ser soberano, priva-se da liberdade de expressar o seu desejo renunciando, assim, a descoberta da autenticidade do seu ser. A mulher torna-se um ser asujeitado que é cortado de sua transcendência por uma consciência que se diz superior, essencial e soberana impedindo-a de reivindicar para si os direitos de um ser singular e por isso também essencial e soberano.

 

 

III.3 – A Mulher e o Sacrifício para Virginia Woolf

 

 

            Virginia Woolf em 1920 publica um ensaio sobre mulheres como um contra-ataque às opiniões do romancista Arnold Bennett expressas no seu livro Our Women: Chapters on the Sexdisvord. Bennett acreditava que a capacidade intelectual estava diretamente relacionada ao papel social de  dominação,  que é exercido pelo homem nas sociedades ocidentais, daí conclui que o intelecto é uma  especialidade masculina. Por outro lado afirma que a prova da inferioridade intelectual das mulheres como um sexo está no desejo de ser dominadas e, que nem educação nem liberdade alterarão este fato.

 

Woolf, partindo de uma retrospectiva histórica contesta essa opinião. Ela observa que entre os séculos dezesseis, dezessete, dezoito e dezenove tem havido um aumento progressivo do número de mulheres notáveis e conclui dizendo :  

“ o avanço das mulheres  me parece  não apenas sensível mas imenso… e os efeitos da educação e da liberdade para esse avanço foram decisivos”. ( Woolf, 1996: 25)

 

 

Woolf, convidada para falar sobre o tema Profissões para Mulheres[1], dá um depoimento pessoal de como para exercer a liberdade de expressar-se verdadeiramente teve que “…travar batalha com um certo fantasma” que era parte de si mesma a quem chamava “O Anjo da Casa”. O Anjo da Casa era o retrato da mulher da sua época, abnegada que  sacrificava-se diariamente, cuja a pureza era a sua maior beleza.

 

Ela relata que ao começar a escrever resenhas sobre livros escritos por homens famosos esse anjo sussurava:

 

“Minha filha você está escrevendo sobre um livro que foi escrito por um homem. Seja complacente, seja terna, adule, iluda use todas as artes e truques de seu sexo. Nunca deixe ninguém supor que você tem uma vontade própria. Antes de tudo, seja pura”. ( Woolf, 1996: 44 )

 

Esse anjo, continua Woolf, custou a morrer e que somente ao matá-lo  pode ser ela mesma, pensando, inventando, imaginando e criando livremente, tornando os seus pontos de vista conhecidos e respeitados. Para ela, essa  luta se fazia constante toda vez que colocava a caneta no papel pois de acordo com o Anjo da Casa ela não podia expressar as suas opiniões livre e abertamente. Segundo ela “É extremamente mais difícil matar um fantasma que uma realidade”. ( Woolf, 1996: 45)

 

 Concluindo podemos dizer que para Woolf escrever era uma transgressão porque ia de encontro ao que era esperado da mulher. O sacrifício  para as mulheres seria não poder pensar diferente dos homens e expressar essas diferenças livremente. A mulher ao expressar as suas idéias livremente corria o risco de  ser punida a qualquer momento, no entanto a criação literária depende dessa autonomia. A  via para o exercício dessa liberdade era a independência financeira; dizia ela:  tendo quarto para si e renda própria. Só assim a mulher poderia se sentir realmente livre para expressar o seu talento artístico e a sua criação literária, em fim ser ela mesma.

 

 

IV.   O Ideal Tradicional de Mulher e o amor romântico

 

 

Inspirando-nos principalmente em Beauvoir (1949) vamos aqui analisar o Ideal Tradicional de Mulher como ideal do amor romântico e imagem  de sacrifício, portanto essa análise  passa pelo entendimento do lugar que foi conferido a mulher no discurso masculino tradicional.

 

No discurso masculino tradicional o homem pensa a mulher não como uma subjetividade em si mas relativamente a ele, assim ela não é considerada um ser independente e autônomo  em busca de uma identidade.

 

A mulher ideal nesse contexto não tem existência para-si mas apenas exerce funções dentro do universo masculino, a sua finalidade encontra-se no homem.

 

Nesse universo modelado, dirigido e ainda hoje dominado pelos homens as mulheres não se consideram  responsáveis, apreende-se como passiva em face a esses semi-deuses que definem fins e valores. A mulher não exerce nenhum domínio sobre a sua realidade o que lhe cabe é a obediência e o respeito.  Nesse sentido, a mulher está condenada a permanecer “uma eterna criança” (Beauvoir, 1949) enquanto aceita sem discussão as verdades e leis que os homens lhes propõe.

 

Na experiência concreta da vida conjugal a mulher casada está ligada ao meio inessencial da utilidade. Ela dedica-se a manter coisas que nunca passam de meios: alimentos, roupas, residência,  é no nível do útil que vive a dona-de-casa.  A sua vida não é dirigida para fins, não tem projetos daí o valor dos meios torna-se  a seus olhos valor absoluto, e é nessa perspectiva que ela encara todo o universo e dá sentido a sua vida.

 

Assim o ideal tradicional de mulher é a que se faz objeto, ela deve ser apenas uma coisa oferecida, uma presa entregue aos desejos de um homem que reina soberano.

 

A palavra amor tem significado diferente para homens e mulheres e não se trata de uma lei da natureza mas da diferença de suas situações. O homem na cultura ocidental se faz sujeito é dono do seu destino e por isso  procura  transcender-se esforçando-se por ampliar seu domínio sobre o mundo. Dessa forma ele é um ser da ação. A mulher é um ser encerrado na esfera do relativo – ser voltado a imanência –  destinada a um ser soberano a quem não lhe é dado igualar-se, não pode assim realizar-se em atos.  

 

À mulher resta, portanto, unir-se de corpo e alma a um desses seres superiores, assumindo radicalmente a sua situação de objeto inessencial, esquecendo a sua própria personalidade quando ama. O amor se torna renúncia e dedicação total sem restrições, sem nenhuma atenção para o que quer que seja. O amor passa a ser a própria vida da mulher.

 

Mesmo com a possibilidade de tornarem-se independentes esse caminho se acha cercado de tentações irresistíveis é ainda o que lhes parece mais atraente. Assumir o controle da própria vida é tarefa árdua e angustiante apesar de ser a mais segura.

 

Os psicanalistas afirmam que a mulher busca no amante ressuscitar uma situação de abrigo, que lhe esconda seu abandono no mundo, que conheceu quando menina no mundo dos adultos. Essa necessidade de encontrar alguém em quem obedecer e entregar-se  cegamente é um desejo de aniquilamento que na verdade é  “ … uma ávida vontade de ser”. (Beauvoir 1945, vol II: 460)
Nas religiões a adoração de Deus é uma preocupação com  a própria salvação que encerra uma espera no encontro de si mesma e do paraíso onde tudo se resume. Muitas mulheres para amar precisam ser amadas pois somente quando sentem-se valorizadas tem enfim licença para se amar através do amor que inspiram. Toda a realidade está no outro, enquanto é necessária para  o amado. Esse devotamento si de inicio trás  felicidade, conduz freqüentemente, a uma automutilação.

 

Toda amorosa se reconhece na pequena sereia de Andersen que, tendo, por amor, trocado sua calda de peixe por pernas de mulher, caminhava sobre agulhas e carvão em brasa. Nenhum homem amado é incondicionalmente necessário e merecedor dos sacrifícios  e cultos que lhes rendem as mulheres.

 

A mulher enquanto renuncia qualquer direito próprio  exige alguém que não se dê a si próprio, mas que queira, ao contrário enriquecer seu eu no amor.  A mulher dá-se, o homem aumenta-se com ela… (Nietzsche, in: Beauvoir vol II 1994, Gaia ciência) 

 

No dia em que a mulher compreender que deve existir essencialmente para si mesma será possível encontrar o amor autêntico que é o reconhecimento de  duas liberdades interdependentes.  O existir essencialmente para si implica na posse de uma independência econômica, projetos próprios e capaz de reconhecer-se e fazer-se reconhecer pela comunidade como um ser singular, indispensável de si mesma a si mesma. Nesse dia o amor para ela será fonte de vida de auto-conhecimento e não de renúncia e negação de si mesma.  

 

Enquanto a existência subjetiva e o sentido da vida da mulher estiver permanentemente ligada a esse amante, ideal de amor romântico, o destino continuará testemunhando  as inúmeras mártires do amor; mulheres mutiladas, incapazes de se bastar a si mesmas. A pequena sereia é um exemplo desses amor que mutila e transforma a mulher ao mesmo tempo em vítima e algoz do seu destino.   

 
 

 

 

V.   A Mulher Contemporânea e a Cultura de Consumo

 

 

No seu artigo Cultura de consumo e feminino: novas questões? Castro (1997)  argumenta como a cultura do consumo passa a regular as práticas sociais da modernidade entre os gêneros. Ela se utiliza das idéias de alguns teóricos como Simmel e Walter Benjamin para falar sobre as mudanças que a cultura contemporânea produz nos sujeitos, modificando a natureza da experiência humana em função dos processos de modernização e urbanização.

 

Assim a cultura de consumo na sociedade contemporânea tem contribuído para a construção de um tecido social que é gendered ou seja, implacavelmente marcada por determinações de gênero.

 

            Simmel (in Castro, 1997) já no começo do século XX, dizia que a sociedade atual é marcada pelo que chamamos de cultura do consumo. Simmel conceitua cultura como um processo dialético do homem com os bens e objetos culturais. Mais adiante, Simmel fala de uma cultura objetiva e de uma cultura subjetiva como dois eixos do processo cultural determinando o lugar do sujeito e da subjetivação na cultura.  

 

A cultura objetiva, segundo Simmel, segue um padrão masculino já que o homem teria atributos que o fazem mais passível de realizar tarefas voltadas para a instrumentalização da cultura. A cultura subjetiva seria o grau de desenvolvimento que cada indivíduo atinge no processo de aprimoramento das técnicas. Portanto, as formas culturais são predominantemente criadas por homens, assim, existe uma relação entre masculinização, objetivação e reificação da cultura.

 

A análise de Simmel sugere a existência de um conflito básico entre cultura objetiva e sujeito feminino. Sujeito feminino caracterizado como recipiente de uma “essência” feminina que de acordo com Simmel “… tende a personalizar tudo o que faz” , isto é, para as mulheres a realização de tarefas faz parte de um continumm que reflete a expressão de sua vida, seus interesses e personalidade. O processo cultural exige a dedicação a tarefas especializadas e “despersonalizadas”. Esse conflito básico segundo Simmel impossibilitaria a feminilização da cultura. Simmel contribui com a idéia de que a cultura objetiva não é indiferente em relação ao gênero e se coloca diferentemente em relação a mulheres e homens.

 

A partir das idéias de Simmel, Castro identifica diferenças entre meninos e meninas no tocante às possibilidades identificatórias com as formas culturais sejam elas atividades, bens ou vivências. Os meninos demonstram possuir uma maior “ancoragem” identificatória como grupo, por exemplo, o esporte como atividade/bem/vivência surge no discurso como signo delimitador de fronteiras do masculino, sendo também um símbolo de comunicação entre os homens.

 

Já as meninas expressam seus interesses de formas mais difusas não sendo possível discriminar uma “forma cultural” predominante na qual elas possam apoiar suas possibilidades identificatórias. Segundo Castro a falta de uma “ancoragem” identificatória maior por parte das meninas é conseqüência da época contemporânea (o feminismo, por exemplo), que propicia uma maior fluidez em relação ao que vem a ser a feminilidade, criando uma incerteza do que se espera da mulher.

 

Algumas autoras, como por exemplo McRobbie (in: Castro 1997) observaram nas suas pesquisas que o romance como representante  simbólico da vivência feminina vem perdendo a sua força.  McRobbie observa que cada vez menos os meios de divulgação passam uma imagem estereotipada da mulher como vítima e escrava do amor, eternamente em busca do príncipe encantado. O romance, segundo a autora, tem sido em parte substituído pelo que ela chama de comodificação da realidade, isto é, pela função do que se pode ter/ comprar. É no reino das coisa que a “igualdade” com os homens se dá.

 

Por outro lado, segundo McRobbie, a emancipação  da mulher em relação ao romance não deu outras ancoragens na realidade sociocultural, o que contribui para uma maior difusão, fluidez da identificação feminina na contemporaneidade.

 

A difusão das possibilidades identificatórias pode ser vista como  permitindo ancoragens para ambos os gêneros levando, segundo Castro (1997), a uma possível androgenização cultural, impulsionada por uma intensa identificação com valores da sociedade tecnológica e consumista. Essa androgenização pode ser observada na cultura contemporânea pela satisfação com que ambos os sexos se referem ao uso do computador, assim como à atividade de comprar coisas.

 

A androgenização cultural na sociedade contemporânea apesar de  promover uma maior flexibilidade de negociação nas definições de masculino e feminino não conduz necessariamente a uma maior presença de valores femininos na cultura como um todo.

 

Um certo apagamento das diferenças segundo o gênero como característica de uma cultura pós-moderna estaria promovendo nos sujeitos uma identificação maciça com valores da sociedade tecnicizada e burocratizada, onde se reduzem ao mínimo os questionamentos e a busca de alternativas. 

 

Assim a idéia de que tanto homens e mulheres integram-se ao consumo “igualmente”, ao nível das práticas sociais do consumo não questiona a superioridade real concedida aos homens num sistema social claramente hierarquizado a favor dos últimos.

 

Sócrates Nolasco no seu artigo Representações Masculinas e Femininas na Televisão analisa como as mudanças que estão ocorrendo nos padrões de masculinidade e feminilidade na cena social vem sendo transmitidas através da diversidade dos personagens das novelas. (in: Jacobina, E. & Kühner, M. 2001)

 

Segundo Nolasco as representações de mulher vem mudando consideravelmente nos últimos anos, deixando de lado a imagem da dona de casa recatada, dependente para o de executiva liberada, paralelamente a uma outra a da mulher exageradamente erotizada que valoriza o corpo e o consumo. Essas novas imagens passaram a ser marca da programação da televisão brasileira e o ideal da mulher contemporânea.

 

 

 

 

 

           

Nolasco conclui, por outra vertente, assim como Castro, que as mudanças que estão ocorrendo nos padrões de feminilidade na verdade é mantenedora de valores de uma sociedade individualista volta para o consumo na medida em que,  as mudanças ocorridas no papel social da mulher permanecem fiéis aos ideais de consumo, sucesso, competitividade e agressividade.

 

 

V.1 – A MULHER CONTEMPORÂNEA E O CULTO DO CORPO

 

 

Na contemporaneidade o corpo feminino, entendido no passado como pecaminoso e que deveria ser combatido na sua sexualidade, passa a ser valorizado, cuidado e adorado como promotor de sucesso, competitividade e felicidade.

 

A valorização do corpo feminino como redentor e detentor da felicidade no final do século XX promove os objetivos da sociedade capitalista de consumo. O corpo feminino passa a ser o mais precioso objeto de consumo, investimento e prazer. Segundo Baudrillard (1995) o corpo ajuda a vender  e por isto precisou ser emancipado para que pudesse ser racionalmente explorado para fins de lucro.

 

A valorização da beleza na contemporaneidade se dá juntamente com  a valorização do corpo porque é através deste que a publicidade promete que será atingida a beleza ideal. O que a publicidade promete através das imagens ideais é que atingindo o modelo de beleza veiculado as mulheres serão felizes, terão êxito em seus empreendimentos amorosos, em seu trabalho, e terão prestigio social. O culto ao corpo e a beleza surge como uma promessa de felicidade absoluta.

 

 

 

 

A valorização dos ideais de beleza, articulada a uma promessa de felicidade plena, fazem com que as mulheres busquem vorazmente a perfeição, tornando-se algozes do seu corpo em busca da beleza ideal. Portanto, a sociedade pós-moderna exige da mulher um outro tipo de sacrifício que é o de atingir a beleza ideal. 

 

Na tentativa de atingir um padrão de beleza que é inatingível, pois está sempre em transformação, as mulheres tratam o corpo com extrema tirania, privando-o de alimento nas inúmeras dietas, mortificando-o nas cirurgias plásticas, submetendo-o a exercícios físicos torturantes. 

 

A beleza é vendida como possibilidade aberta a todos que utilizarem as técnicas e produtos anunciados, reforçando a responsabilidade individual em relação à seu corpo e sua beleza.

 

Assim, a mulher se encontra aprisionada num culto ao corpo disposta a fazer tudo para conquistar um corpo ideal. Essa  busca incansável pelo corpo perfeito, simbolizado pela magreza, exige um esforço para perder peso que pode levar muitas vezes a desenvolver transtornos alimentares como Bulimia e Anorexia, que se caracteriza por um medo intenso de ganhar peso e também por um controle extremo da forma física.

 

A sociedade capitalista pós-moderna procura transformar o corpo das mulheres em objeto de consumo. Os padrões de beleza por sua vez estão sendo sempre renovados o que implica que esse ideal jamais será satisfeito mantendo o consumo de bens relativos ao corpo sempre em demanda. A boneca Barbie representa a imagem de como as mulheres modernas devem ser. Uma imagem que aprisiona limitando as muitas possibilidades de ser e estar a um único padrão o de ser e estar sempre bela, magra, consumista e feliz.

 

 

 

O culto ao corpo é o sacrifício exigido hoje da mulher contemporânea  onde as diferenças reais são abolidas e substituídas por uma homogeneização, onde a diferenciação e exclusão  atual se dá em função da imagem  de sucesso, beleza e felicidade; aqueles que têm podem pertencer e os que não têm não pertencem. A mulher se torna escrava dessa imagem de corpo que valoriza o ter  e não o ser na sua singularidade. 

 

 

VI.   Uma Análise do Conto de Fada “A Pequena Sereia”

 

 

Os contos de fada fixados nos séculos XVIII e XIX, representam as idéias e concepções desses séculos sobre a sexualidade, a justiça, a moral e a ética.

 

Segundo Bettelheim (1980), os contos de fadas, através dos personagens das estórias, ajudam as crianças a tomarem consciência dos problemas morais  e da necessidade de resolvê-los. Os contos de fada são, portanto, um importante agente de socialização porque oferecem ideais sociais que  a criança pode  buscar como padrão.

 

Os contos, segundo Chauí, se por um lado ajudam a liberar os desejos, fantasias e manifestações da sexualidade infantil, por outro, não questionam a moral sexual burguesa. Assim, aceita a divisão social  dos papéis masculinos e femininos como divisão sexual correta. Além disso fazem do trabalho e do sucesso valores centrais que também obedece essa divisão sexual correta.

 

Originalmente a sereia representava o oposto do que podemos chamar de personalidade angelical.

 

A figura mais antiga da sereia foi Atargatis, uma Deusa da fertilidade com rabo de peixe que era adorada pelos Sírios e Fariseus.

 

 

As sereias gregas eram mulheres passáros cujo o canto sedutor ludibriava os homens atraindo-os para a morte. Na idade média essa imagem de mulher-pássaro transformou-se em mulher-peixe  cujo o rabo de peixe representava sensualidade.

 

Na era medieval a sereia seduzia o homem para obter sua alma. O seu canto seduzia o homem que se entregava aos prazeres da carne levando-o a morte moral e física. Assim como Eva seduziu Adão a comer a maçã e a perder a sua mortalidade e o paraíso. As sereias eram mulheres fortes e resistentes.

 

Na era Elizabetana a sereia era sinônimo de cortesã. Mais tarde, no final desse século, a sereia simbolizava um ser predador, destrutivo, sedutor, primitivo cuja a  forma física sugeria algo animalesco. Com a sua sensualidade ela arrastava as suas vítimas para a morte nas águas profundas do mar.

 

Por volta de 1835, Andersen criou uma versão alternativa onde a sereia se apresenta menos ofensiva e mais domesticada. Nessa versão original ele converteu a maioria das características tradicionais aplicadas a sereia no seu oposto. A sereia é caracterizada como um ser sensível, ingênuo, sonhador que possui uma visão do mundo e dos homens romantizada e idílica.

 

A sereia de Andersen  deseja possuir uma alma imortal, portanto, almeja algo que só os humanos possuem.  Bem antes de ver o príncipe e se apaixonar por ele a sereia é obcecada pelo mundo terrestre dos humanos, que considera superior ao seu. A sereia, no entanto, tem uma natureza diferente da dos homens. Ela é um ser que vive na água e que possui uma cauda de peixe. A cauda de peixe precisa ser substituída para que ela possa ser aceita no mundo dos homens. Essa cauda é substituída através de mágica pela feiticeira do mar por um par de pernas. A mesma feiticeira do mar que lhe deu as pernas, tira-lhe a voz sedutora como pagamento.

 

Assim, a sereia não poderá usar o seu canto sedutor para conquistar o príncipe. A sua  beleza, a sua dança e a expressão dos seus olhos é que irá atrair o príncipe. No entanto cada passo será como se estivesse pisando em cima de pontas de faca.

 

A cauda de peixe e o canto são símbolos da sua natureza primitiva, da sua energia animal e sensualidade. Perdê-los significa perder a sua fonte de energia primitiva (id) e a possibilidade de conhecer os seus instintos e poder dominá-los (ego). Na verdade é abrir mão do seu ser, da sua singularidade, em fim da vida. A sereia coloca nas mãos do príncipe a sua felicidade e por fim a sua vida. A obtenção do seu amor é para ela a suprema realização, o sentido da vida. Só assim poderá ser feliz e viver. Portanto, a vida só é possível através dele e com ele.

 

Aqui os papéis sexuais são rígidos baseados na atividade/ passividade do homem/mulher onde o perfil feminino corresponde a imagem de fragilidade, de submissão e  silêncio (perda da voz). Essa imagem sintetiza como já vimos o tipo de sacrifício esperado da mulher tradicional ideal.  

 

A sereia passa a amar o príncipe tão profundamente que resolve sacrificar a sua identidade para poder lutar pelo seu amor. Quando ela nega a sua natureza para amar o príncipe ela opta por uma vida de sacrifícios e constante dor.

 

A sereia, no entanto não consegue obter o amor do príncipe ou si tornar uma mortal como os homens, mas decide por amá-lo em segredo. Ela escolhe o sacrifício e por último a morte a recuperar a sua identidade (o seu eu ) e a sua natureza animal. Para voltar a ser sereia ela teria que matar o príncipe e banhar-se no seu sangue,  transformando as suas pernas em calda de peixe. Decide por deixá-lo viver e assim morre. A mensagem que essa passagem veicula é  que a vida sem ele é desprovida de sentido.

 

 

 

Nesse conto o sacrifício é representado como uma virtude. No entanto o conto também revela que o sacrifício como negação do eu leva a autodestruição e a morte. Portanto, podemos dizer que o controle dos instintos primitivos só tem valor juntamente com o desejo de auto-conhecimento e auto-afirmação. 

 

O conto apresenta  a necessidade de integrar as naturezas díspares do id, ego e superego para a felicidade da protagonista, assim como para a felicidade humana, já que o homem possui uma natureza ao mesmo tempo humana e animal.

 

O propósito do sacrifício nas práticas de penitência dos Santos Cristãos é observado como  única possibilidade de salvação para um mundo superior e melhor. Isso é que faz com que a idéia de sacrifício seja potencialmente sedutora. No conto da pequena sereia a mesma idéia prevalece. O mundo dos homens era considerado melhor, superior.

 

O ideal de pureza é simbolizado na porção mágica que parecia “água límpida e clara”.  Ao beber a porção mágica a sereia perderia a cauda e a voz símbolos da sua sexualidade e passaria a ter pernas e viver em constante dor. Isso nos faz pensar que a sexualidade era tido como algo impuro que precisava ser eliminado. Aqui o ideal de mulher é aquela que se sacrifica pelo amor romântico negando a sua sexualidade através do fragelamento do corpo.

 

Todos desejamos nos libertar de sentimentos de tristeza, infelicidade, para uma vida virtuosa e plena de satisfação e felicidade. O objetivo é sentir-se conectada com a essência do que é bom. O perigo que ronda as mulheres hoje e que é revelado na estória da pequena sereia é a crença de que esse estado de felicidade e virtuosidade só é preenchido através do outro, o que leva a desilusão e infelicidade. 

 

 

 

Como muitas mulheres a sereia confunde transcendência espiritual com  devoção por amor. Ela personifica uma tendência feminina de ver que o único caminho para a salvação e felicidade estava no sacrifício pessoal por outra pessoa. No entanto, o caminho para uma vida plena e feliz está na capacidade de transformação que é conseqüência do auto-conhecimento.

 

A identificação das mulheres com a virtude do sacrifício faz com que esqueçamos de quem somos para tornarmos seres sempre prontos a dar e doar como se ser e fazer juntos fossem fonte de grande desconforto. O social  coloca como função da mulher apenas o dar e o doar, isto é o “ser”, o afeto. 

 

 

VII.   Comparando a versão original do conto e a versão da disney.

 

 

Gostaria de comparar a versão original do conto da Pequena Sereia de Andersen com a versão da Disney, por ser essa mais lida e conhecida das crianças. Meu objetivo com essa comparação é fazer uma reflexão sobre as modificações que a idéia de sacrifício presente no conto original tem sofrido ao longo do tempo e, como isso repercute em termos de mudanças ou não na concepção sobre a mulher e o lugar que ocupa na sociedade.

 

Acho pertinente aqui falar sobre as  idéias de Walt Disney que levaram à criação do cenário da Disney para podermos compreendermos melhor como determinados padrões de perfeição, beleza e consumo passaram a fazer parte da imagem de sucesso  e felicidade da sociedade contemporânea de consumo,  contribuindo para a construção da identidade de gênero de garotas e mulheres. 

 

A vida do Walt Disney foi marcada por uma grande obsessão a de criar um mundo paralelo onde a fantasia escondesse a realidade. Realidade essa que ele odiava, produto de uma infância infeliz povoada pelofantasmada suspeita de ser um filho adotivo. O seu mundo paralelo/idealizado tinha como virtude a beleza e felicidade absolutas, assim planejava reconstruir a infância triste de uma maneira perfeita. A forma que encontrou, para esconder o real, foi trocar o  passado por formas míticas.

 

Um dos seus biógrafos mais ácidos, Marc Eliot, não via nele um produtor de ideologias, acreditava que Disney nos seus filmes procurava criar uma nova infância para si. Entretanto Disney era um representante da classe média daqueles tempos, conservadora onde o perfeccionismo fazia como ainda hoje faz parte da sociedade americana. Assim ele acreditava que a perfeição poderia ser atingida. (Haag, 2001)

 

Segundo Neal Gabler biógrafo de Disney :

 

“Disney era um homem complusivo, perfeccionista, acreditava ter  uma missão fazer a vida perfeita. Os desenhos animados e os parques temáticos  eram apenas etapas para alcançar esse fim.” (Haag, 2001)

 

Após os anos 50 a obsessão de Disney era criar cidades, como  Disneyland e  o Epcot inicialmente concebidas como modelos urbanos do futuro. As sociedades que idealizou obedeciam a uma padronização que é conservadora e rigidamente construída de acordo com papéis de gênero estritamente definidos,  favorecendo a alienação dos seres humanos.

 

De acordo com Giroux (1995), os personagens femininos nos filmes da Disney não fogem a esse padrão, construídos de acordo com papéis de gênero estritamente definidos, as mulheres são em última instancia subordinadas aos personagens masculinos, definindo seu sentido de poder e desejo quase que exclusivamente em termos das narrativas masculinas dominantes.  A beleza a perfeição e a promessa de felicidade absoluta só é alcançada dentro do modelo cultural da sociedade capitalista de consumo, visão compartilhada  pelo universo fílmico de Disney.

 

 

Na versão da Disney da Pequena Sereia o personagem feminino Ariel encarna a sereia, modelada dentro dos padrões de consumo atuais  de beleza que aprisiona a mulher a uma imagem de corpo ideal. Imagem essa que promete sucesso, prazer total e felicidade absoluta.  Ariel é modelada de acordo com a boneca Barbie, levemente anoréxica, representante social da mulher moderna e do ideário capitalistas que anula as diferenças reais dos seres humanos em nome de uma produção padronizada da diferença.

 

A Pequena Sereia da Disney inicialmente se apresenta como uma adolescente rebelde que desafia a autoridade paterna motivada pelo desejo de conhecer o mundo dos homens. Entretanto o que a motiva a lutar para obter independência de seu pai é atrair o amor de um homem ideal e para isso deve submeter-se a vários sacrifícios, no pacto que faz com a bruxa do mar.

 

A perda da voz é caracterizada como algo positivo porque na fala da bruxa do mar homens não gostam de mulheres que falam. O  beijo do príncipe em Ariel mesmo sem que ela nunca tenha falado confirmando mais uma vez que o ordenamento sexual dos papéis femininos continua o mesmo.

 

Assim o tornar-se mulher oferece a Ariel a recompensa de se casar com um homem certo e de boa aparência em troca da renúncia da sua vida e introjeção de um modelo cultural que lhe impõem escolhas/sacrifícios que a aprisiona na igualdade em nome de uma aceitação. 

 

Como podemos constatar a versão da Disney da Pequena Sereia e o conto original da mesma estória escrito por Andersen  confirmam no final o lugar subserviente que a mulher continua a ocupar na nossa sociedade. Em ambas narrativas a sereia é uma metáfora para uma dona-de-casa-em-formação.

 

 

 

 

Podemos afirmar, portanto, que a visão de mundo da Disney parece inspirar a reprodução de estereótipos negativos  sobre a mulher, na medida em que, os personagens femininos são construídos obedecendo a rígidos  papéis de gênero – a sereia tem um pai dominante – e a mulher  tem sua vida valorizada para resolver os problemas do homem e como unidade de consumo, na imagem ideal de beleza, mantendo assim o ideário capitalista. 

 

Os filmes e os textos produzem e reproduzem estruturas culturais representantes de contextos políticos, econômicos e ideológicos. Regimes dominantes de poder funcionam para limitar as visões que as crianças podem trazer para os filmes animados da  Disney restringindo também como se definem no interior dessas representações. É necessário a reflexão crítica para que possamos tornar visível as relações entre poder e conhecimento que muitas vezes passam despercebidas e tomadas como um dado natural pela freqüência das imagens que vinculam.

 

Segundo Yunes (in: Jacobina, E. & Kühner, M. 2001), certos estereótipos da condição feminina são conseqüência do silenciamento da voz feminina, sendo paulatinamente desestigmatizada na medida em que a literatura infantil se desvencilhe do olhar expressamente masculino e a história das mulheres passa a ser narrada por mulheres.

 
 

 

VIII   CONCLUSÃO

 

 

Escolhi escrever sobre a mulher e sua relação com a cultura na tentativa de entender melhor o espírito de sacrifício pessoal das mulheres e como a cultura e o ideário capitalista vem ao longo do tempo se utilizando desse modo de subjetivação na elaboração de normas e condutas feminina.

 

Utilizei a imagem mítica  da sereia, utilizada por Andersen como suporte para os questionamentos que pretendia  investigar sobre a feminilidade e o que é  ser mulher. A comparação com a versão da Disney sobre o mesmo conto contribuiu para um maior entendimento do processo  de subjetivação da condição da mulher nos dias de hoje; o que mudou e o que permanece.

 

O espírito de sacrifício pessoal das mulheres não tem suas bases na natureza e constituição biológica do seu ser, mas na forma como a cultura influência os seus processos psicológicos.

 

No passado era exigido da mulher submissão e renuncia. As mulheres não contestavam a soberania dos homens, só podiam ganhar o que eles  concordavam em lhes conceder.

 

Na contemporaneidade os homens passam a reconhecer a reciprocidade de suas relações com as mulheres na idéia de que integram-se ao consumo igualmente, i.e. em função do que se pode ter/comprar. Entretanto, ao nível das práticas sociais de consumo característica de uma cultura pós-moderna essa identificação maciça com valores da sociedade tecnológica e consumista  não questiona a superioridade real concedida aos homens num sistema claramente hierarquizado a favor dos últimos.

 

 

A subjetividade feminina atual é influenciada pelo ideal de consumo imediatista que enaltece o culto ao corpo. O ser mulher atualmente exige um outro tipo de sacrifício a busca do ideal de beleza como símbolo de sucesso e felicidade que é igualmente escravizante por ser irreal e inatingível.

 

Podemos concluir que a cultura do sacrifício continua fazendo parte da vida das mulheres que existem socialmente pelo que têm e pela aceitação da imagem de beleza, sucesso e felicidade vinculada pelo ideário capitalista.

 

A esperança para nós mulheres está no desejo de escapar do eterno feminino na defesa de uma igualdade que aceite a diferença sem hierarquia e sem ambigüidade, na emergência do feminino como esforço de alteridade e reconhecimento de que o humano pode encontrar riqueza imaginando-se diferente, concebendo-se novo.

             


 

 

Anexo 1 – O conto de andersen “A pequena seria”  versão resumida

 

 

Em alto mar moram num castelo um rei viúvo, sua mãe e seis princesas sereias. Sua mãe cuidava das princesas e contava-lhes histórias sobre o mundo dos homens. Quando completavam 15 anos era permitido que subissem à tona da água à noite para verem passarem os navios e de longe as florestas e as cidades.

 

Cada sereia que subia à tona via coisas diferente e quando voltavam para o castelo contavam  tudo o que viam para as outras. Nenhuma delas, no entanto, ansiava tanto pelo dia de subir à tona quanto a caçula. Essa, no jardim onde brincava, guardava a estátua de um rapaz que caíra no fundo do mar, restos de um naufrágio.

 

No dia em que completou 15 anos a mais moça das sereias pode, finalmente, subir à tona. Ela  tinha que ficar muito bonita e como sinal de beleza e realeza várias ostras foram presas na sua cauda. A sereiazinha reclamava da dor que as ostras presas a sua cauda lhe causavam. Sua vó a consolava dizendo que se ela queria ficar bonita era necessário sofrer.

 

A sereia logo que sobe avista um navio e nada para bem perto da janela de uma cabina e vê um jovem príncipe pelo qual se apaixona. Era o dia do seu aniversário e o navio estava em festa. Uma tempestade se aproxima, o navio não resiste e  naufraga. O príncipe é tragado para o fundo do mar.   

 

A sereia resolve nadar em direção a ele e o salva, levando-o para terra firme. Nesse lugar no alto de um morro tinha um convento e ela deixa o príncipe ali, na esperança que alguém o socorresse. Nada para longe escondendo-se atrás das pedras. Logo uma jovem se aproxima do lugar, vê o príncipe e leva-o para dentro do convento.

 

A sereia volta para o castelo, mas não para de pensar no príncipe e na vida que poderia ter ao seu lado. Passa a desejar tanto estar com ele e, como ele ter uma alma imortal, que resolve procurar a bruxa do mar e em troca de um par de penas lhe entrega a voz. A porção mágica da bruxa transformará a sua cauda de peixe em um par de pernas, porém isso lhe causará  grande dor, será como o seu corpo fosse atravessado por uma espada afiada.

 

O seu andar seria leve e gracioso, mas cada passo seria como se ela estivesse pisando em cima de pontas de facas. A sereia aceita o sacrifício na esperança de satisfazer o seu desejo. No entanto se ela não conseguisse o amor do príncipe e se não se tornassem marido e mulher, nunca teria uma alma imortal. Na primeira manhã depois dele ter se casado com outra, seu coração se partiria e ela se transformaria em espuma nas ondas do mar. 

 

A sereia vai para o castelo do príncipe e ao tomar a porção mágica da bruxa ela obtém um par de bela pernas, mas a dor é tão insuportável que desmaia. Ao acordar vê o príncipe que a leva par o castelo e lhe faz várias perguntas que não pode responder, porque lhe falta a voz. o seu gracioso andar a sua dança, Apesar da dor que sentia cada vez que seus pés tocavam o chão, a sereia tornou-se a melhor bailarina do castelo e o príncipe  admirava a sua dança e o seu gracioso andar. O príncipe passou a gostar muito dela mais não pensa em casar-se com ela.

 

No entanto, o príncipe precisa casasse e um dia  para fazer os desejos do  do rei faz uma viagem para conhecer uma princesa, que seria uma pretendente a ser sua noiva. Entretanto revela a sereia que não tem esperanças de dia achar a jovem que o encontrou na praia e por quem se apaixonou e que a sereia estava aos poucos conquistando o seu coração.

 

 

 

O príncipe ao ancorar no porto do reino vizinho é  apresentado a princesa a quem deveria pedir em casamento. Para surpresa dele e desgraça da sereia, ela era a jovem que o havia encontrado na praia e por quem havia se apaixonado.

 

Na noite do casamento os noivos embarcaram no navio e a sereia   também os acompanha. A sereia não escutava a música e seus olhos nem viam a cerimônia, pensava somente que sua  morte estava  próxima e recordava tudo quanto perdera neste mundo.

 

As quatro irmãs vendo o seu sofrimento vão até a bruxa do mar e em troca de uma faca mágica que salvaria a vida da  sereia dão como pagamento os seus belos cabelos. As sereias se aproximam do navio e dão a faca a sereia e dizem que ela deveria antes do sol raiar enterrá-la no coração do príncipe e, assim que o sangue dele  manchasse os seus pés, eles novamente tomariam a forma de cauda de peixe. De novo como sereia ela poderia voltar a morar no fundo do mar com elas.

 

A sereia vai no quarto do jovem casal, mas, sem coragem de matá-lo joga a faca no mar. O sol está nascendo e a  sereia muito triste, atira-se ao mar dissolvendo-se em espuma.

 

 

 

Anexo 2 – O conto da Disney “A pequena seria”  versão resumida

 

A história começa quando o rei do mar Tritão vai dar um concerto e nessa festa a sereiazinha Ariel iria dançar pela primeira vez. Ariel não aparece para a festa porque estava olhando um navio naufragado, pois tudo do mundo dos homens a encantava. A festa foi um fracasso e o rei fica  muito furioso com Ariel, principalmente porque não gostava que ela subisse para a superfície. 

 

Ariel, no entanto,  sonhava com o mundo na superfície e quando podia desacatava ao ordens do rei e subia para apreciá-lo.  Um dia  ao nadar para a superfície viu um navio e um lindo príncipe chamado Eric. Um furacão se aproximava, o príncipe foi jogado no mar e Ariel o salvou. A salvo  na margem, Ariel cantou para o príncipe que ao ser achado disse, que foi salvo por  uma garota que tinha a voz mais linda que já havia ouvido. Ariel mergulha no mar mais diz que um dia irá fazer parte do seu mundo.

 

A bruxa do mar Úrsula sabendo do desejo de Ariel resolve ajudar. Em troca da sua voz transformaria a sua cauda de peixe em pernas. O príncipe, no entanto, deveria se apaixonar por ela senão ela se transformaria em sereia de novo e se tornaria sua escrava.

 

O príncipe  encontra Ariel na praia mas não acha que ela seja a garota que o salvara porque ela não podia falar e muito menos cantar.

 

Úrsula monta um plano para que Eric não se apaixone por Ariel. Ela se transforma em uma linda garota, chamada Vanessa e usa a concha que continha a voz de Ariel. Eric ao ouvir  e ver Vanessa cantar cai no seu encanto.

 

No dia seguinte Ariel vê Eric com Vanessa e o navio do casamento parte ao pôr-do-sol. Ariel vê que perdeu a chance de ser amada por Eric e está condenada a ser escrava de Úrsula para sempre.

 

No entanto, descobre que Vanessa era na verdade Úrsula e na confusão a concha mágica que guardava a voz  de Ariel se quebra e ela volta a  falar. O príncipe reconhece em Ariel a garota que o salvou e por quem se apaixonou.  Quando finalmente o príncipe beija Ariel o sol já está se pondo, a magia  se desfaz e as pernas da sereiazinha se transformam de novo em cauda de peixe. Ariel é levada para o fundo do mar por Úrsula, que conta o plano ao rei, que revolve tomar o lugar de escravo de Úrsula em troca da liberdade da filha. Com os novos poderes Úrsula se transforma num enorme mostro do mar.

 

O corajoso príncipe navega com o seu navio na direção de Úrsula e a proa perfura o coração dela. Lentamente ela afunda nas ondas. O poder de Tritão se restabelece e ele vendo o amor de Eric e de Ariel transforma a cauda de Ariel de novo em pernas. Eles se casam e vivem felizes para sempre.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

IX.   REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: 

 

 

Andersen, Hans Christian (1984). Hans’s Andersen Fairy Tales. Oxford: Oxford University Press. 

 

Baudrillard, Jean (1995) A Sociedade de Consumo. Rio de Janeiro: Ed Elfos, Lisboa.

 

Carneiro, Cristina (1997) A Insustentável Plenitude da Beleza: Um estudo psicanalítico sobre a mulher e o consumo. Dissertação de Mestrado PUC-RJ

 

Chauí, Marilena (1984). Repressão Sexual essa nossa (Des)Conhecida. Rio de Janeiro: Brasiliense.

 

Bettelheim, Bruno (1980). A Psicanálise dos Contos de Fada. São Paulo: Paz e Terra.

 

Beauvoir, Simone de (1949). O Segundo Sexo. São Paulo: Nova Fronteira,  vol.I.

 

Beauvoir, Simone de (1949). O Segundo Sexo. São Paulo: Círculo do Livro,  vol II.

 

França, M. & E. (1992). Contos de Andersen – A Sereiazinha. São Paulo:  Ática.

 

Campos, Maria Consuelo (2001).  De Frankenstein ao Transgênero – Modernidades/Tânsitos/ Gêneros. Rio de Janeiro: Ágora da Ilha.

 

Castro, Lucia Rabello (1997). Cultura de Consumo e Feminino: Novas Questões? Coletânea da ANPEPP, vol 1, no 7, Julho.

 

Edgar, Amy (2001). A Pequena  Sereia. Brasil: Disney.com.br

 

Giroux, H (1995). A Disneysação da Cultura Infantil in: Tomás Tadeu da Silva e Antonio F. Moreira (org): Territórios Contestados – o currículo e os novos mapas culturais. Petrópolis: Vozes.

 

Golden, Stephanie (1998). Slaying the Mermaid – Women and the Culture of Sacrifice. New York: Harmony Books.

 

 

 

 

HAAG, Carlos (2001) Espelho: há mundo mehor que o meu? In VALOR ECONÔMICO, 1,2,3 e 4, nov. Eu &, p. 14-17.

 

JACOBINA, Eloá & Kühner, Maria Helene (1998). Feminino e masculino – No imaginário de diferentes épocas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.

 

PEREIRA, Laís (2001). Barbie “uma imagem que aprisiona”. Trabalho de Conclusão do Curso de Graduação em Psicologia PUC-RJ.

 

Woolf, Virgínia (1996). Kew Gardens – O Status Social da Mulher um Toque Feminino na Ficção Profissões para Mulheres. São Paulo: Paz e Terra.

 

Woolf, Virginia (1928). A Room of One’s Own. Londres: Penguin, 1963.

 

 

[1] Virginia Woolf discurso para a National Society for Women’s Service em 21 de janeiro de 1931; publicado postumamente em The Death of the Moth, em 1942.


 


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